Dentre todos os problemas e pseudo-problemas da mulher moderna, as reclamações femininas acerca dos homens me irrita profundamente.
Entre a cruz e a espada. Entre a cozinha e o mundo pós-moderno (e muitas vezes na cozinha e no mundo pós-moderno), as mulheres estão divididas. A vida da mulher nunca foi fácil, vista como mercadoria desde a Bíblia, a práxis social da mulher sempre foi limitada à casa, aos filhos e aos assuntos menores da sociedade.
Porém, tão sujeitas ao darwinismo quanto os homens, as mulheres se especializaram nas intrigas de bastidor, na manipulação do instinto masculino e no exercício do seu poder de persuação emocional, as mulheres sobreviveram bem na Roma Antiga (Cléo, Calpúrnia, Servilia, Octavia, etc), no Reino de Israel (Sarah, Rachel, Ruth, Esther, Maria Madalena). Através da história elas sempre foram as rainhas do poder informal. Nietzscheanamente exercendo o seu desejo de poder do jeito que elas conseguiram. Oprimidas ou não, seu legado está aí.
No século 20, as senhorinhas francesas, inglesas e americanas conseguiram legar a todas o direito de voto. Veio a guerra, e elas ingressaram de vez no mercado de trabalho. Sutiãs queimados, bundas à mostra, Haight-Ashbury, Simone de Beauvoir (no melhor estilo faça o que eu digo mas não faça o que eu faço) e elas estão hoje na política, na academia, na filosofia. E vieram Judith Butler, Camille Paglia e companhia limitada e hoje elas são caminhoneiras profissionais, bombeiras, encanadoras, rabinas, etc.
Mediante a enumercação dos fatos por parte deste pobre raconteur, há ainda os que afirmam que a guerra dos sexos não acabou e que há homens com saco de mandar em mulher. Francamente, eu acho que isso é raça em extinção, enterro de anão, pesquisa do ibope. Mandar em mulher hoje em dia seria para quem tem paciência de sentar na caverna com o Bin Laden e tentar falar para ele que Tocqueville e Montesquieu têm razão com relação à democracia e que Allah meu bom Allah é só mais um entre os vários deuses fodões, todos garantindo acesso irrestrito ao céu e virgens (com tanta oferta de virgens, Jerusalém, Mecca, Salt Lake City, o mercado das virgens hoje é globalizado).
Tendo isso em mente, eu perguntei para uma amiga o que ela mais apreciava em um homem. E para o meu total abestalhamento, ela respondeu 'o fato de eu me sentir protegida'.
[pausa dramática]
Protegida do quê, perguntaria eu? Da fúria inquebrantável de Chuck Norris? Da ira de Javé? Das faltas cobradas pelo Roberto Carlos? Da resistência hercúlea dos plásticos de CD? Tendo um CV mais impressionante que nerd japonês do Massachussets Institute of Technology (eu inventei um robô, resolvi o teorema de Fermat, consegui a paz na Palestina e resgatei todo mundo da ilha de Lost), o movimento feminista conseguiu em menos de dois séculos o que a África não conseguiu em mais de 500. E elas querem proteção. Como homem, nessa hora eu me senti tão inútil quanto o segurança do Jet Li.
To be continued (quando o doutorado permitir)...
Argument Clinic for Dummies
"Ah. I'd like to have an argument, please." "Certainly sir. Have you been here before?" "No, I haven't, this is my first time." "I see. Well, do you want to have just one argument, or were you thinking of taking a course?" "Well, what is the cost?" ...
Wednesday, March 26, 2008
Friday, March 7, 2008
Aging
O post da SFO vem depois.
_______________
Por todos esses anos, eu sempre tive medo da morte - a famigerada condição que supostamente nos faz humanos. Mas como ser humano está longe das minhas pretenções, é difícil para mim aceitar, sem considerar o desespero existencialista Kierkegaardiano, a morte como algo de facto. Mas como fazemos todos nós? Como saber que o fim existe e pode estar próximo e ainda assim nos preocuparmos com pegar o dryclean? Me impressiona muito o fato de que há pessoas nesse mundo que aceitam a morte e a finitude e não fazem o que Dylan Thomas recomenda ao seu pai: vão-se gentis, noite boa adentro ('do not go gentle into that good night'). Ainda, como Isaac, morrem 'velhos e saciados de dias'. Como pode alguém saciar-se de dias? A vida pede mais, mas nem sempre surpreende depois de alguns anos. O ciclo se fecha, lentamente.
Num momento Waking Life (foi uma grande coincidência ouvir alguém falando sobre isso no rádio, depois de ter escrito meio post ontem - e ainda eu ouvia um tango e flutuava!), hoje no taxi voltando de Berkeley, ouvi um comentarista da NPR contar de uma mulher que, em seus delírios, indagava pessoas comuns pela rua - chacoalhando-as - como elas conseguiam lidar com a vida, sabendo da morte.
A vida, queira ou não, é feita de um infinito ciclo de repetições. Tudo na vida é repetido inúmeras vezes - [INTERLÚDIO] por isso eu não consigo comprrender a razão da obcessão que as pessoas têm com querer acertar sempre da primeira vez, faz alguma diferença, acertar, do ponto de vista da eternidade? [FIM DO INTERLÚDIO] - ciclos de 24 horas, 7 dias, 12 meses. Tudo igual. Os anos passam cada vez mais rápido.
Quando se sente a primeira náusea das repetições da vida, se tem a experiência da morte como a mente a experimenta. Quando a sua falta de vontade de repetir os dias se faz presente, assim se conhece o primeiro passo em direção da morte. Foi o que aconteceu no último ano que passou, um eterno dejá vu de situações, mesmo contando com inúmeras mudanças.
Sêneca comenta de Cícero que este, sendo um dos homens mais inteligentes em Roma por décadas, acabou um 'meio prisioneiro'. Há uma certa ironia no tom, e maior ironia ainda quando ele elogia os feitos de Augustus (Otavinho, para os íntimos), que segue em busca da reclusão da vida pública em favor dos seus 'entretenimentos'. Se ambos Cícero e Otávio eram homens sábios - e ambos buscavam a sabedoria até como forma de entretenimento. Qual a diferença entre o político por trás das câmeras e a figura do imperador? Com certeza não diferem em importância. Mas o homem que ardilosamente pôs a sabedoria teórica de Gaius Julius Caesar em prática tem mais valor. Atos simples, coisas visíveis.
Nas Sátiras, Juvenal cunhou a frase "Quis custodiet ipsos custodes?" ou "Quem guardará os guardiães?". Isso era um problema para Platão, na República - e este justificava que os guardiães não necessitavam ser guardados pois eram, naturalmente, mais sábios e atuavam com dikaiosune, ou o conceito do conjunto de virtudes que leva à virtude da justiça. E isso nos leva ao paradoxo da sabedoria: de que adianta, buscar a sabedoria, se hoje em dia os sábios - proclamados como tais - só o são mediante o clamor da maioria não sábia. Matematicamente falando: a soma das burrices não reconhece a unidade da inteligência, pois é uma diferença qualitativa. Em outras palavras, recaímos na dialética vulgar de que 'cabe somente ao sábio reconhecer outro', e como bem vê Nietzsche, é claro que nós sempre apontaremos sábios.
Sábios ou não, o que importa é que vejam o que sabemos em uma forma tangível, aquém do questionamento dúbio e do ardil dos críticos. Uma prova cartesiana de que sim, vale a pena viver, quando se tenta fazer algo que é eterno.
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Por todos esses anos, eu sempre tive medo da morte - a famigerada condição que supostamente nos faz humanos. Mas como ser humano está longe das minhas pretenções, é difícil para mim aceitar, sem considerar o desespero existencialista Kierkegaardiano, a morte como algo de facto. Mas como fazemos todos nós? Como saber que o fim existe e pode estar próximo e ainda assim nos preocuparmos com pegar o dryclean? Me impressiona muito o fato de que há pessoas nesse mundo que aceitam a morte e a finitude e não fazem o que Dylan Thomas recomenda ao seu pai: vão-se gentis, noite boa adentro ('do not go gentle into that good night'). Ainda, como Isaac, morrem 'velhos e saciados de dias'. Como pode alguém saciar-se de dias? A vida pede mais, mas nem sempre surpreende depois de alguns anos. O ciclo se fecha, lentamente.
Num momento Waking Life (foi uma grande coincidência ouvir alguém falando sobre isso no rádio, depois de ter escrito meio post ontem - e ainda eu ouvia um tango e flutuava!), hoje no taxi voltando de Berkeley, ouvi um comentarista da NPR contar de uma mulher que, em seus delírios, indagava pessoas comuns pela rua - chacoalhando-as - como elas conseguiam lidar com a vida, sabendo da morte.
A vida, queira ou não, é feita de um infinito ciclo de repetições. Tudo na vida é repetido inúmeras vezes - [INTERLÚDIO] por isso eu não consigo comprrender a razão da obcessão que as pessoas têm com querer acertar sempre da primeira vez, faz alguma diferença, acertar, do ponto de vista da eternidade? [FIM DO INTERLÚDIO] - ciclos de 24 horas, 7 dias, 12 meses. Tudo igual. Os anos passam cada vez mais rápido.
Quando se sente a primeira náusea das repetições da vida, se tem a experiência da morte como a mente a experimenta. Quando a sua falta de vontade de repetir os dias se faz presente, assim se conhece o primeiro passo em direção da morte. Foi o que aconteceu no último ano que passou, um eterno dejá vu de situações, mesmo contando com inúmeras mudanças.
Sêneca comenta de Cícero que este, sendo um dos homens mais inteligentes em Roma por décadas, acabou um 'meio prisioneiro'. Há uma certa ironia no tom, e maior ironia ainda quando ele elogia os feitos de Augustus (Otavinho, para os íntimos), que segue em busca da reclusão da vida pública em favor dos seus 'entretenimentos'. Se ambos Cícero e Otávio eram homens sábios - e ambos buscavam a sabedoria até como forma de entretenimento. Qual a diferença entre o político por trás das câmeras e a figura do imperador? Com certeza não diferem em importância. Mas o homem que ardilosamente pôs a sabedoria teórica de Gaius Julius Caesar em prática tem mais valor. Atos simples, coisas visíveis.
Nas Sátiras, Juvenal cunhou a frase "Quis custodiet ipsos custodes?" ou "Quem guardará os guardiães?". Isso era um problema para Platão, na República - e este justificava que os guardiães não necessitavam ser guardados pois eram, naturalmente, mais sábios e atuavam com dikaiosune, ou o conceito do conjunto de virtudes que leva à virtude da justiça. E isso nos leva ao paradoxo da sabedoria: de que adianta, buscar a sabedoria, se hoje em dia os sábios - proclamados como tais - só o são mediante o clamor da maioria não sábia. Matematicamente falando: a soma das burrices não reconhece a unidade da inteligência, pois é uma diferença qualitativa. Em outras palavras, recaímos na dialética vulgar de que 'cabe somente ao sábio reconhecer outro', e como bem vê Nietzsche, é claro que nós sempre apontaremos sábios.
Sábios ou não, o que importa é que vejam o que sabemos em uma forma tangível, aquém do questionamento dúbio e do ardil dos críticos. Uma prova cartesiana de que sim, vale a pena viver, quando se tenta fazer algo que é eterno.
Monday, March 3, 2008
those were the days
those were the days
I could walk on clouds - I daresay
happiness flowed out of me
to my utter dismay
though I could not stay
part of me could not just have leave'd
two men - I was - bound in a unique good feeling
of what I've been bereave'd
but fate is a beast not easily appease'd
and fate made my wheel of time spin separately
for one cannot seek love and wisdom together
so I treaded on my path, ruefully
I rage silently at fate, nemesis of love
and part of me is there on the riverside
walking lazily in the afternoon
Our little pink palace will always be there
the garden full of white bathtubs
where the flowers that color my memory bloom
F.
I could walk on clouds - I daresay
happiness flowed out of me
to my utter dismay
though I could not stay
part of me could not just have leave'd
two men - I was - bound in a unique good feeling
of what I've been bereave'd
but fate is a beast not easily appease'd
and fate made my wheel of time spin separately
for one cannot seek love and wisdom together
so I treaded on my path, ruefully
I rage silently at fate, nemesis of love
and part of me is there on the riverside
walking lazily in the afternoon
Our little pink palace will always be there
the garden full of white bathtubs
where the flowers that color my memory bloom
F.
Friday, February 29, 2008
So me:
I certainly haven't been shopping for any new shoes
-And-
I certainly haven't been spreading myself around
I still only travel by foot and by foot, it's a slow climb,
But I'm good at being uncomfortable, so
I can't stop changing all the time
I notice that my opponent is always on the go
-And-
Won't go slow, so's not to focus, and I notice
He'll hitch a ride with any guide, as long as
They go fast from whence he came
- But he's no good at being uncomfortable, so
He can't stop staying exactly the same
If there was a better way to go then it would find me
I can't help it, the road just rolls out behind me
Be kind to me, or treat me mean
I'll make the most of it, I'm an extraordinary machine
I seem to you to seek a new disaster every day
You deem me due to clean my view and be at peace and lay
I mean to prove I mean to move in my own way, and say,
I've been getting along for long before you came into the play
I am the baby of the family, it happens, so
- Everybody cares and wears the sheeps' clothes
While they chaperone
Curious, you looking down your nose at me, while you appease
- Courteous, to try and help - but let me set your
Mind at ease
"Extraordinary Machine" by Fiona Apple.
-And-
I certainly haven't been spreading myself around
I still only travel by foot and by foot, it's a slow climb,
But I'm good at being uncomfortable, so
I can't stop changing all the time
I notice that my opponent is always on the go
-And-
Won't go slow, so's not to focus, and I notice
He'll hitch a ride with any guide, as long as
They go fast from whence he came
- But he's no good at being uncomfortable, so
He can't stop staying exactly the same
If there was a better way to go then it would find me
I can't help it, the road just rolls out behind me
Be kind to me, or treat me mean
I'll make the most of it, I'm an extraordinary machine
I seem to you to seek a new disaster every day
You deem me due to clean my view and be at peace and lay
I mean to prove I mean to move in my own way, and say,
I've been getting along for long before you came into the play
I am the baby of the family, it happens, so
- Everybody cares and wears the sheeps' clothes
While they chaperone
Curious, you looking down your nose at me, while you appease
- Courteous, to try and help - but let me set your
Mind at ease
"Extraordinary Machine" by Fiona Apple.
Thursday, February 28, 2008
42
Amanhã eu vou comprar uma mala.
Pois a minha mala menor se fué nas mãos bonitinhas de uma francesa má. Quem diria, eu farei minha primeira viagem de férias totalmente sozinho. Cansei de lutar contra o fato de que nós seguimos por essa vida sós e que toda pessoa que a gente encontra pelo caminho que nos traz algo de bom é lucro - e o resto é perda de tempo. Nessa hora eu entendo as peregrinações, os votos de silêncio, a meditação, os monges budistas, o que quer que seja que te tire da consciência da grande condenação a ser livre - do resíduo existencial.
Mas a parte mal-do-século desse post acabou. Eu achei a mulher da minha vida no YouTube. Sim, a mulher da minha vida no YouTube. [NAHT!] Mas eu teria um caso, sério. A moça criativa musicou genialmente um contou meu (que eu escrevi em 2005) com uma música da Fiona Apple (com esssa sim eu casaria = linda e neurótica). Enfim. Aqui vai o conto, republicado, e ao seu final o vídeo da genial Grapes.
_________________________________
813 M117m
Felipe Casadei
Eu subi ao segundo andar da biblioteca naquela manhã com destino certo. No sistema de Dewey, 813: Ficção Norte-Americana. Tinha certeza absoluta do que queria e onde estava. Aquelas estantes eram como o interior do meu próprio guarda-roupa. Eu sabia onde tudo estava. Aquilo era o meu pequeno reino. A autora que eu queria estava na penúltima estante do corredor, quarta prateleira de cima para baixo, os últimos livros na direita. C. E lá estariam todos os livros dela de que a biblioteca dispunha, os quais eu estava acostumado a ver ordenados sempre da mesma maneira, afinal, era sempre eu que fazia isso. Havia as duas edições relativamente novas das suas novelas que, embora fossem de bolso, eram as únicas legíveis pois serviam de casa para ácaros jovens com os quais meu sistema respiratório conseguia se entender. O resto eram edições compradas nos anos sessenta, cujos ácaros, já aposentados, não conseguiam conviver com o ar que entrava e saía dos meus pulmões enquanto eu tentava ler. Logo, eu tinha que me contentar com as edições mais novas e deixar o resto de lado.
Mas naquela manhã eu não achei uma das edições novas. Alguém havia me descoberto.
Tomei a liberdade de reservar o volume retirado com o bibliotecário, a fim de que o desconforto que me trazia não ter um dos meus livros favoritos à mão não se estendesse por mais do que alguns dias. O volume estaria de volta em três dias. Era o que eu teria que esperar até que o anônimo invasor do meu reino de fronteira invisível fosse destituído de sua posse ilegal.
Enquanto vagava pelas outras estantes, perplexo, tentei refletir sobre a razão pela qual aquele fato simples e corriqueiro me incomodou tanto. E comecei a me lembrar de como tudo aquilo começara.
Desnecessário dizer que eu sempre gostei de ler. E as bibliotecas para mim sempre foram pequenas ilhas de tranqüilidade num universo de ambientes onde eu não conseguia me encaixar. Lá eu conseguia me indulgir a certas particularidades bizarras do meu hedonismo mais íntimo. Tais como sentar no chão entre as estantes e entrar num universo qualquer de um escritor escolhido a esmo pela estante. Foi assim que eu conheci C. A novelista norte americana que escrevia sobre amores impossíveis de serem recebidos e fora homenageada por B. com um poema. Foi assim que eu conhecera, no passado, M., J., V., S., D., e muitos outros mestres cuja menção é desnecessária. Foi assim também que eu me apaixonei pelos romances ingleses.
Sempre acreditei que essa atividade me levaria a conhecer universos inteiros apenas pelo prazer de aventurar-me sozinho, sem ter que confiar na palavra de ninguém. Eu mesmo podia navegar no oceano da literatura sem ter de me preocupar com o que as pessoas iriam dizer do que eu lia, sem tampouco dever nada a ninguém. Com o tempo eu me isolei nessa atividade. Tornou-se uma imensa fonte de prazer, andar solitário e sem rumo por entre os livros, olhando detalhes, olhando as capas, cheirando-os, fantasiando, imaginando quem lera aqueles livros todos no passado e por quê. Me viciei também em ler livros sobre escritores, livros que contam como os escritores chegaram às suas idéias brilhantes e inovadoras, e como o dom de observação e a sentimentalidade singular deles os guiaram pelos meandros de suas histórias, pelos conflitos de seus personagens. Só eles tem a chave secreta do livro da vida de todos os personagens. Quem nunca imaginou o que veio antes ou depois da história de determinado personagem? E o que determinado personagem faria se estivesse em seu lugar, na vida real? Quantas decisões não tomamos espelhados nesse raciocínio quase que involuntário? Os livros te dão essa perspectiva, os livros alimentam a sua imaginação. O único detalhe notável é que a minha cometia o pecado da gula.
Por quê diabos alguém havia entrado no universo de C. comigo exatamente naquela semana? Queria saber quem era e enfiar o dedo na cara do indivíduo e expulsá-lo do meu pequeno reino. Mas eu não podia. A educação e a covardia me impediam. O máximo que eu pude fazer foi esperar os três dias.
Três dias depois o livro estava lá, são e salvo na reserva esperando por mim. Tê-lo em minhas mãos me trouxe muito alívio. Eu tinha, enfim, posto o dedo na cara do intruso. O livro fora devolvido, sem delongas, sem protestos. Eu podia lê-lo uma, duas, três vezes se quisesse, sem ser incomodado novamente. Tudo isso eu pensei enquanto o funcionário cadastrava o livro em meu nome e o desmagnetizava para que eu pudesse sair da biblioteca sem acionar o alarme. Mas meu adversário definitivamente era páreo para mim. O funcionário anunciou que havia uma reserva para dali sete dias. Eu devia retornar o livro à biblioteca, sem falta, em sete dias.
Senti o sangue subir-me à cabeça. Saí da biblioteca enfurecido, com passos pesados, pensando em trucidar o ser que ousava invadir o momento mais cândido da minha tranqüilidade. Me sentia injustiçado, acima de tudo. Tivera o trabalho de escolher uma autora cult o suficiente para evitar qualquer disputa por lançamentos em livrarias populares ou para, se quisesse, pesquisar a vida e a obra da autora com pessoas que genuinamente se interessavam pelo seu trabalho e por como a sua vida fora dolorosamente convertida em arte imortal. Ou ainda, ser um dos primeiros no mundo a pesquisar seus manuscritos, e talvez sentir o prazer infindável de encontrar um rascunho, uma carta, uma nota deixada de lado pelos amigos e família da autora falecida que leram em primeira mão seu legado ao mundo. Mas não. Existia alguém ali, próximo, talvez naquele mesmo corredor, que me espreitava e queria um pedaço da minha diversão particular.
Não consegui ler o livro. A pressão era grande demais e eu não conseguia me concentrar. Tentei várias vezes mas não passei das primeiras cinco páginas. Passei os sete dias olhando para o livro na minha escrivaninha, sem nada poder fazer. Absolutamente nada. Pensei em roubar o livro da biblioteca, voltar lá e dizer simplesmente que eu perdi o livro. Talvez tivesse que pagar o livro ou achar algum da autora e repor. Sim. Era antiético. Mas dessa forma eu estaria livre para sempre do terror de talvez ter que trilhar meu caminho entre as estantes e ver meu reino arrasado, enfrentar a ausência do livro como prova cabal da realidade que se impunha sobre mim.
Contudo, no sétimo dia, o livro foi devolvido por mim. Sem protesto nem roubo. Resolvi aceitar a realidade e seguir adiante. Pensei em mudar minha preferência talvez para 833: Ficção Alemã. Lá com certeza a chance de me deparar com alguém usurpando meu território de forma tão explícita seria menor. Me condenei rapidamente. Dessa forma tudo estaria arruinado. Onde estaria o prazer imenso em simplesmente escolhei um volume a esmo e levantar minha âncora deste mundo? Eu seria, caso aceitasse essa cisão em meu território, apenas alguém limitado pelos códigos. O meu universo de escolha seria somente após o 833. Mas e o resto? E se eu tivesse perdido algum excelente escritor pelo caminho? Talvez não fosse como C., mas poderia ser talvez um K. ou ainda um P. Não! Definitivamente as coisas não seriam as mesmas depois desse evento simples, mas catastrófico. Depois de devolver o livro resolvi subir novamente ao segundo andar e pensar um pouco. Deparar comigo mesmo visto de um ângulo não muito agradável definitivamente não era prazeiroso. Eu reagia de forma totalmente inconsciente e instintiva. Não conseguia me sentir confortável da mesma forma que antes. Sentei entre as estantes. 812: Drama Americano. T. Nunca havia lido nada dele, embora seus títulos fossem interessantes. Entre as estantes, percebi uma sombra no corredor adjacente. 813. Alguém se aproximava. Não me mexi. Não queria fazer barulho algum. Eu observaria. E caso fosse o usurpador sorrateiro, ele seria implacavelmente confrontado.
A sombra adentrava o corredor. De onde eu estava, tinha vista por entre as prateleiras e poderia ver exatamente onde ele pararia e, aliado a meus conhecimentos do território, saberia exatamente qual obra de qual escritor estava consultando. Silêncio. A sombra se movia em direção ao fim do corredor, mais e mais próximo de 813. A sombra agachou-se. Precisamente em frente ao local onde eu estava sentado e encolhido em silêncio. 813 M117m. Eu estava com certeza defronte meu inimigo, separado apenas por alguns centímetros, duas estantes de ferro e duas fileiras de livros que impediam que trocássemos um olhar livre. Tentei decidir o que fazer rapidamente. Escolhi me levantar devagar e passar por entre as estantes, fingindo apenas estar passando, com destino a outra estante mais à frente, dessa forma, poderia ver meu inimigo sem que este imaginasse que eu estava em seu encalço.
O que eu vi não poderia ser mais surpreendente: Ela estava sentada, encostada na estante, lendo o outro volume disponível de C., exatamente do mesmo modo que eu costumava fazer. Reconheci imediatamente a contracapa verde-clara. Quis surpreende-la no ato, perguntar se ela era quem ousava reservar o livro depois de mim. Mas não pude. Fui fraco, como sempre. Segui adiante, buscando refúgio no corredor seguinte. Onde, por entre as prateleiras, eu conseguiria vê-la. Milhões de perguntas zuniam dentro da minha mente, mas eu só conseguia observá-la, em silêncio. Ela tinha cabelos pretos curtos, ligeiramente ondulados, um pouco acima dos ombros. Era pequena, magra e morena com traços bem delineados. As mãos eram ágeis ao virar as páginas, angulosas, de unhas curtas bem feitas. Ela vestia uma camiseta azul-clara, jeans azul-escuro e tênis brancos de corrida. Não conseguia ver mais nada de onde eu estava, observando-a quase covardemente pelas costas. Senti uma familiaridade absolutamente desconcertante naquela cena. Ela sentada no chão, despreocupada, lendo C., matando o tempo, como se tivesse saído de uma lembrança minha.
Tive medo. O que eu faria depois de saber o que sabia? Não sabia como nem por quê, mas sabia que tinha que reagir de certa forma. Aquilo parecia uma ironia cósmica, saber que meu universo era invadido não por um inimigo, mas por um semelhante. Tinha de descobrir mais sobre ela, mas com certeza isso não se daria pelas vias normais. Invariavelmente seria algo indireto, escuso, tímido, como eu era.
Muitos dias se passaram. Eu devolvi o livro em seu lugar, tentando inutilmente utilizá-lo como isca. Mas ela não apareceu mais para pegá-lo. Me perguntei se ela não seria somente uma leitora, não uma semelhante. Talvez ela não fosse como eu, afinal. Talvez ela sim estaria seguindo uma recomendação e estava ali por acaso. Talvez aquele gesto tão familiar para mim não fosse nada mais que um acaso. Mas na verdade isso tudo me confundia mais ainda, me empurrava na direção da curiosidade. Quanto mais perguntas eu fazia, mais eu queria respondê-las e isso não fazia a lembrança dela desaparecer. Eu tinha que agir, não importa de que jeito.
" Charles, bom dia."
" F. Bom dia. Veio renovar?"
" Sim, por favor."
" Um minuto." Charles digitou nervosamente no teclado do terminal da biblioteca "Mmm. Pronto. Para daqui sete dias. Todos eles."
" Obrigado, Charles. Obrigado mesmo. Mas eu preciso de mais um favor seu."
" Pode falar."
" C.M. 813 M117m. Quem pegou o livro antes de mim? Preciso muito saber..." Charles me olhou imensamente desconfiado. Mas, como era meu amigo e eu já havia saciado seu apetite literário várias vezes com livros emprestados, ele não hesitou em me pagar de volta o favor.
"Só um minuto. Vou consultar." De sua maneira usual, Charles digitou mais uma vez alguns comandos para consultar o bando de dados de empréstimo da biblioteca.
"Você quer o número de registro dela também?" Perguntou Charles, como se fosse cúmplice de um crime.
"Não. O primeiro nome já é o bastante."
"C." Respondeu Charles.
" Muito obrigado!" Respondi, sorrindo.
Fora fácil. Agora eu tinha o nome. E de que me adiantaria? Com certeza não iria escrever o nome numa cartolina e esperar no saguão da biblioteca dia após dia, até ela aparecer. Eu iria fazer algo bem mais sutil.
"C.
Preciso muito falar com você. Estou curioso e queria te fazer algumas perguntas. Uma resposta a esse bilhete já diria muito. "
Pus o bilhete no meio de 813 M117m. Não tive coragem de assinar. Mas mesmo assim me contentava com a idéia de que o mero fato dela achar o bilhete realmente diria muito. Se houvesse uma resposta para o bilhete, ela seria uma semelhante. Se não, era um caso para esquecer, uma coincidência. E se fosse coincidência, eu poderia dormir tranqüilo, sem mais perguntas sobre ela zunindo na minha mente.
Durante dias eu me sentei, não no meio das estantes como costumava, mas nas mesas de leitura, observando atentamente o livro onde eu tinha deixado o bilhete. Após ter que me ausentar do meu posto eu verificava o livro em procura de alguma resposta. Mas nenhuma veio. Tentei controlar minha ansiedade, que aliada à minha timidez latente não me deixava muita escolha senão esperar mais tempo. Mas embora eu relutasse em reconhecer, a idéia de que tudo aquilo não passara de algo fabricado no interior da minha cabeça de leitor inveterado ganhava terreno. Relutei em me convencer que aquilo era uma coincidência e nada mais.
Eu refleti sobre a situação como um todo. Consegui, em meio à minha ansiedade, me ausentar de mim mesmo e ver a situação por outro prisma: eu era um esnobe. Um esnobe intelectual. E como podia isso ser? Era simples. Eu criara aquela situação toda. Eu tinha o hábito de leitura compulsiva, o que me levava a achar que eu era alguém incomum em meio a todo o mundo. O centro do meu próprio universo. Mas eu não era. Os livros estavam na biblioteca para todos consultarem. Por quê haveriam de ter edições lá pelas quais apenas eu me interessaria. O fato de C. ter lido também os livros de C. só vinha a provar que todo o distúrbio causado não se dava porque o fato era incomum, mas porque ele era comum. Eu é que não aceitava. Eu era um leitor comum. Eu ter escolhido C. não me tornava especial. Era apenas obra do acaso. Bem como era obra do acaso C. estar sentada entre as estantes naquele dia.
Essa conclusão me trouxe alívio, por fim. Desisti do meu posto de observação. Desisti da minha vigilância rígida sobre os livros de C. Depois daquela devolução muitas semanas se passaram sem que eu sequer pensasse em voltar àquela estante. Procurei outros escritores, outros temas, outras coisas nas quais me concentrar. Os amores impossíveis de serem recebidos descritos por C. não eram mais tema central para mim.
Eu encontrei J. Outro autor fascinante pela crudeza de sua narrativa e pelo humor que ele punha em seus personagens. Seus personagens tinham vida. Ele escrevia sobre o nascimento de um escritor. E o nascimento do escritor, para ele, se dava ao mesmo tempo que o nascimento do homem contido no escritor. Embriões-escritores. Embriões-homens. Todos esperando para nascer. Gostei dessa idéia. Além do mais, eu havia feito progresso: J. não fora encontrado dentro da biblioteca, embora com certeza pertencesse também a 813. Devo dizer também, por vaidade, que J. não me foi sugerido por ninguém.
O engraçado desse evento todo, da descoberta de J., é que J. teve a vida muito parecida com a de C.: ambos tiveram doenças que tornavam escrever uma atividade quase insuportável. Ambos morreram jovens e amaram uma só pessoa na vida. E eles dois tinham B. em comum. B., que homenageara C. com um poema, fora admirador profundo de J. B. apenas se enveredou pelos caminhos da literatura porque um dia leu J. Achando toda essa coincidência fascinante, voltei um dia à biblioteca novamente com destino certo. 813. Dessa vez procurando por B. Escolhi, dentre os seus vários títulos lá disponíveis, um que me agradou e levei para casa. Antes de iniciar a leitura, folheei o volume em busca do pequeno papel com a data de devolução que o bibliotecário costuma colocar nas primeiras páginas. Não havia papel com data de devolução. Havia apenas um bilhete dobrado ao meio, escrito cuidadosamente, com letra de forma reta.
"Prezado admirador de C.,
Sua nota me perturbou por alguns dias. Quis responder logo, mas resolvi deixar a resposta num lugar menos óbvio. Tenho minhas razões. Você achar este bilhete realmente me dirá muito.
C.
P.S.: Achei o título deste volume apropriado para uma resposta minha."
Fiquei absolutamente perplexo com o que acabara de encontrar. Não consegui raciocinar direito por algumas boas horas. Li e reli o bilhete várias vezes. Queria ter certeza de que o bilhete era de C. Parece até hoje inacreditável que a cabeça de alguém possa funcionar dessa maneira. Eu estava maravilhado, e de certa forma abismado, em saber que tudo o que eu havia pensado de C. não passara de perda de tempo. Ela era uma leitora inveterada. Era, definitivamente, uma semelhante.
Me lembrei da primeira vez que a vi, sentada preguiçosamente entre as estantes, perdida entre os parágrafos de 813 M117m, imersa na prosa sensível e cativante de C. Tal lembrança me fez sorrir como eu não sorria há muito tempo. O seu P.S. também de certa forma denotava algo ligeiramente esnobe em seu caráter. Embora, claro, não deixasse de ser um comentário imensamente espirituoso.
Escrevi uma resposta à ela em um papel roxo, para que não houvesse chance dela não encontrar o bilhete. Pensei em por de volta em B., mas logo desisti em favor de C. Achei bem mais apropriado, afinal, foi por causa de C. que tudo começou. Se não fosse eu, meus hábitos e minhas excentricidades, nada disso teria acontecido. Causalidade. Nunca saberei.
Esperei aquele dia todo. Pensei que talvez naquele mesmo dia ela estivesse por lá e fizesse sua ronda habitual e descobrisse minha resposta esperando por ela. Mas ela não apareceu. Decidi voltar no dia seguinte.
O dia seguinte amanheceu chuvoso. O céu cinza-chumbo prognosticava um dia de chuva fina, irritante e contínua. Ponderei por alguns momentos se eu deveria ir até a biblioteca verificar se C. havia recebido sua reposta. E talvez, se ela fosse rápida, deixara alguma para mim. Apanhei o guarda-chuva e fui. Afinal, o que uma chuva apenas poderia fazer de mal?
Cheguei molhado até os ossos na biblioteca. Charles me olhou espantado e eu sorri para ele, como quem quer dizer 'não posso evitar estar molhado desse jeito'. Ele sorriu de volta, divertido pela minha falta de jeito. No segundo andar, penúltima estante, quarta prateleira de cima para baixo, os últimos livros na direita. C. O volume novo. Abri. Folheei. Não havia mais papel roxo. Ela havia recebido a resposta. Me voltei, sentando no chão e encostando na prateleira, com o volume na mão. Não havia quase ninguém na biblioteca, a chuva havia espantado a todos. Levantei-me, procurando por ela. Não estava a vista ali, perto de 813. Verifiquei todos os cantos da biblioteca. Ela não estava lá. Decidi ir embora, desapontado.
Abri meu guarda-chuva, ainda molhado, e prossegui de volta para casa Logo após a cobertura do corredor que levava à porta principal, onde eu estaria vulnerável às poças d'água e à chuva torrencial. C. apareceu, protegida por um guarda-chuva roxo. Sorri, tímido, assim que ela olhou para mim pela primeira vez. Percebi que ela tinha olhos negros, profundos e puxados quase à maneira oriental. Não consegui reagir e ela se aproximou o máximo que nossos guarda-chuvas permitiam. Retirou o bilhete do bolso e o balançou no ar, como se quisesse dizer algo apenas com o olhar. Eu não consegui entender. Ela chegou mais perto, junto a mim, fechando seu guarda-chuva, desnecessário na distância que ela se encontrava de mim. Tomou o meu das minhas mãos e o fechou também, nos deixando à mercê da chuva.
"Quero te responder que sim. Eu quero." disse ela.
E antes de fechar os olhos, percebi que ela me abraçava e que o papel roxo manchava minha camiseta branca, ajudado pela chuva.
Pois a minha mala menor se fué nas mãos bonitinhas de uma francesa má. Quem diria, eu farei minha primeira viagem de férias totalmente sozinho. Cansei de lutar contra o fato de que nós seguimos por essa vida sós e que toda pessoa que a gente encontra pelo caminho que nos traz algo de bom é lucro - e o resto é perda de tempo. Nessa hora eu entendo as peregrinações, os votos de silêncio, a meditação, os monges budistas, o que quer que seja que te tire da consciência da grande condenação a ser livre - do resíduo existencial.
Mas a parte mal-do-século desse post acabou. Eu achei a mulher da minha vida no YouTube. Sim, a mulher da minha vida no YouTube. [NAHT!] Mas eu teria um caso, sério. A moça criativa musicou genialmente um contou meu (que eu escrevi em 2005) com uma música da Fiona Apple (com esssa sim eu casaria = linda e neurótica). Enfim. Aqui vai o conto, republicado, e ao seu final o vídeo da genial Grapes.
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813 M117m
Felipe Casadei
Eu subi ao segundo andar da biblioteca naquela manhã com destino certo. No sistema de Dewey, 813: Ficção Norte-Americana. Tinha certeza absoluta do que queria e onde estava. Aquelas estantes eram como o interior do meu próprio guarda-roupa. Eu sabia onde tudo estava. Aquilo era o meu pequeno reino. A autora que eu queria estava na penúltima estante do corredor, quarta prateleira de cima para baixo, os últimos livros na direita. C. E lá estariam todos os livros dela de que a biblioteca dispunha, os quais eu estava acostumado a ver ordenados sempre da mesma maneira, afinal, era sempre eu que fazia isso. Havia as duas edições relativamente novas das suas novelas que, embora fossem de bolso, eram as únicas legíveis pois serviam de casa para ácaros jovens com os quais meu sistema respiratório conseguia se entender. O resto eram edições compradas nos anos sessenta, cujos ácaros, já aposentados, não conseguiam conviver com o ar que entrava e saía dos meus pulmões enquanto eu tentava ler. Logo, eu tinha que me contentar com as edições mais novas e deixar o resto de lado.
Mas naquela manhã eu não achei uma das edições novas. Alguém havia me descoberto.
Tomei a liberdade de reservar o volume retirado com o bibliotecário, a fim de que o desconforto que me trazia não ter um dos meus livros favoritos à mão não se estendesse por mais do que alguns dias. O volume estaria de volta em três dias. Era o que eu teria que esperar até que o anônimo invasor do meu reino de fronteira invisível fosse destituído de sua posse ilegal.
Enquanto vagava pelas outras estantes, perplexo, tentei refletir sobre a razão pela qual aquele fato simples e corriqueiro me incomodou tanto. E comecei a me lembrar de como tudo aquilo começara.
Desnecessário dizer que eu sempre gostei de ler. E as bibliotecas para mim sempre foram pequenas ilhas de tranqüilidade num universo de ambientes onde eu não conseguia me encaixar. Lá eu conseguia me indulgir a certas particularidades bizarras do meu hedonismo mais íntimo. Tais como sentar no chão entre as estantes e entrar num universo qualquer de um escritor escolhido a esmo pela estante. Foi assim que eu conheci C. A novelista norte americana que escrevia sobre amores impossíveis de serem recebidos e fora homenageada por B. com um poema. Foi assim que eu conhecera, no passado, M., J., V., S., D., e muitos outros mestres cuja menção é desnecessária. Foi assim também que eu me apaixonei pelos romances ingleses.
Sempre acreditei que essa atividade me levaria a conhecer universos inteiros apenas pelo prazer de aventurar-me sozinho, sem ter que confiar na palavra de ninguém. Eu mesmo podia navegar no oceano da literatura sem ter de me preocupar com o que as pessoas iriam dizer do que eu lia, sem tampouco dever nada a ninguém. Com o tempo eu me isolei nessa atividade. Tornou-se uma imensa fonte de prazer, andar solitário e sem rumo por entre os livros, olhando detalhes, olhando as capas, cheirando-os, fantasiando, imaginando quem lera aqueles livros todos no passado e por quê. Me viciei também em ler livros sobre escritores, livros que contam como os escritores chegaram às suas idéias brilhantes e inovadoras, e como o dom de observação e a sentimentalidade singular deles os guiaram pelos meandros de suas histórias, pelos conflitos de seus personagens. Só eles tem a chave secreta do livro da vida de todos os personagens. Quem nunca imaginou o que veio antes ou depois da história de determinado personagem? E o que determinado personagem faria se estivesse em seu lugar, na vida real? Quantas decisões não tomamos espelhados nesse raciocínio quase que involuntário? Os livros te dão essa perspectiva, os livros alimentam a sua imaginação. O único detalhe notável é que a minha cometia o pecado da gula.
Por quê diabos alguém havia entrado no universo de C. comigo exatamente naquela semana? Queria saber quem era e enfiar o dedo na cara do indivíduo e expulsá-lo do meu pequeno reino. Mas eu não podia. A educação e a covardia me impediam. O máximo que eu pude fazer foi esperar os três dias.
Três dias depois o livro estava lá, são e salvo na reserva esperando por mim. Tê-lo em minhas mãos me trouxe muito alívio. Eu tinha, enfim, posto o dedo na cara do intruso. O livro fora devolvido, sem delongas, sem protestos. Eu podia lê-lo uma, duas, três vezes se quisesse, sem ser incomodado novamente. Tudo isso eu pensei enquanto o funcionário cadastrava o livro em meu nome e o desmagnetizava para que eu pudesse sair da biblioteca sem acionar o alarme. Mas meu adversário definitivamente era páreo para mim. O funcionário anunciou que havia uma reserva para dali sete dias. Eu devia retornar o livro à biblioteca, sem falta, em sete dias.
Senti o sangue subir-me à cabeça. Saí da biblioteca enfurecido, com passos pesados, pensando em trucidar o ser que ousava invadir o momento mais cândido da minha tranqüilidade. Me sentia injustiçado, acima de tudo. Tivera o trabalho de escolher uma autora cult o suficiente para evitar qualquer disputa por lançamentos em livrarias populares ou para, se quisesse, pesquisar a vida e a obra da autora com pessoas que genuinamente se interessavam pelo seu trabalho e por como a sua vida fora dolorosamente convertida em arte imortal. Ou ainda, ser um dos primeiros no mundo a pesquisar seus manuscritos, e talvez sentir o prazer infindável de encontrar um rascunho, uma carta, uma nota deixada de lado pelos amigos e família da autora falecida que leram em primeira mão seu legado ao mundo. Mas não. Existia alguém ali, próximo, talvez naquele mesmo corredor, que me espreitava e queria um pedaço da minha diversão particular.
Não consegui ler o livro. A pressão era grande demais e eu não conseguia me concentrar. Tentei várias vezes mas não passei das primeiras cinco páginas. Passei os sete dias olhando para o livro na minha escrivaninha, sem nada poder fazer. Absolutamente nada. Pensei em roubar o livro da biblioteca, voltar lá e dizer simplesmente que eu perdi o livro. Talvez tivesse que pagar o livro ou achar algum da autora e repor. Sim. Era antiético. Mas dessa forma eu estaria livre para sempre do terror de talvez ter que trilhar meu caminho entre as estantes e ver meu reino arrasado, enfrentar a ausência do livro como prova cabal da realidade que se impunha sobre mim.
Contudo, no sétimo dia, o livro foi devolvido por mim. Sem protesto nem roubo. Resolvi aceitar a realidade e seguir adiante. Pensei em mudar minha preferência talvez para 833: Ficção Alemã. Lá com certeza a chance de me deparar com alguém usurpando meu território de forma tão explícita seria menor. Me condenei rapidamente. Dessa forma tudo estaria arruinado. Onde estaria o prazer imenso em simplesmente escolhei um volume a esmo e levantar minha âncora deste mundo? Eu seria, caso aceitasse essa cisão em meu território, apenas alguém limitado pelos códigos. O meu universo de escolha seria somente após o 833. Mas e o resto? E se eu tivesse perdido algum excelente escritor pelo caminho? Talvez não fosse como C., mas poderia ser talvez um K. ou ainda um P. Não! Definitivamente as coisas não seriam as mesmas depois desse evento simples, mas catastrófico. Depois de devolver o livro resolvi subir novamente ao segundo andar e pensar um pouco. Deparar comigo mesmo visto de um ângulo não muito agradável definitivamente não era prazeiroso. Eu reagia de forma totalmente inconsciente e instintiva. Não conseguia me sentir confortável da mesma forma que antes. Sentei entre as estantes. 812: Drama Americano. T. Nunca havia lido nada dele, embora seus títulos fossem interessantes. Entre as estantes, percebi uma sombra no corredor adjacente. 813. Alguém se aproximava. Não me mexi. Não queria fazer barulho algum. Eu observaria. E caso fosse o usurpador sorrateiro, ele seria implacavelmente confrontado.
A sombra adentrava o corredor. De onde eu estava, tinha vista por entre as prateleiras e poderia ver exatamente onde ele pararia e, aliado a meus conhecimentos do território, saberia exatamente qual obra de qual escritor estava consultando. Silêncio. A sombra se movia em direção ao fim do corredor, mais e mais próximo de 813. A sombra agachou-se. Precisamente em frente ao local onde eu estava sentado e encolhido em silêncio. 813 M117m. Eu estava com certeza defronte meu inimigo, separado apenas por alguns centímetros, duas estantes de ferro e duas fileiras de livros que impediam que trocássemos um olhar livre. Tentei decidir o que fazer rapidamente. Escolhi me levantar devagar e passar por entre as estantes, fingindo apenas estar passando, com destino a outra estante mais à frente, dessa forma, poderia ver meu inimigo sem que este imaginasse que eu estava em seu encalço.
O que eu vi não poderia ser mais surpreendente: Ela estava sentada, encostada na estante, lendo o outro volume disponível de C., exatamente do mesmo modo que eu costumava fazer. Reconheci imediatamente a contracapa verde-clara. Quis surpreende-la no ato, perguntar se ela era quem ousava reservar o livro depois de mim. Mas não pude. Fui fraco, como sempre. Segui adiante, buscando refúgio no corredor seguinte. Onde, por entre as prateleiras, eu conseguiria vê-la. Milhões de perguntas zuniam dentro da minha mente, mas eu só conseguia observá-la, em silêncio. Ela tinha cabelos pretos curtos, ligeiramente ondulados, um pouco acima dos ombros. Era pequena, magra e morena com traços bem delineados. As mãos eram ágeis ao virar as páginas, angulosas, de unhas curtas bem feitas. Ela vestia uma camiseta azul-clara, jeans azul-escuro e tênis brancos de corrida. Não conseguia ver mais nada de onde eu estava, observando-a quase covardemente pelas costas. Senti uma familiaridade absolutamente desconcertante naquela cena. Ela sentada no chão, despreocupada, lendo C., matando o tempo, como se tivesse saído de uma lembrança minha.
Tive medo. O que eu faria depois de saber o que sabia? Não sabia como nem por quê, mas sabia que tinha que reagir de certa forma. Aquilo parecia uma ironia cósmica, saber que meu universo era invadido não por um inimigo, mas por um semelhante. Tinha de descobrir mais sobre ela, mas com certeza isso não se daria pelas vias normais. Invariavelmente seria algo indireto, escuso, tímido, como eu era.
Muitos dias se passaram. Eu devolvi o livro em seu lugar, tentando inutilmente utilizá-lo como isca. Mas ela não apareceu mais para pegá-lo. Me perguntei se ela não seria somente uma leitora, não uma semelhante. Talvez ela não fosse como eu, afinal. Talvez ela sim estaria seguindo uma recomendação e estava ali por acaso. Talvez aquele gesto tão familiar para mim não fosse nada mais que um acaso. Mas na verdade isso tudo me confundia mais ainda, me empurrava na direção da curiosidade. Quanto mais perguntas eu fazia, mais eu queria respondê-las e isso não fazia a lembrança dela desaparecer. Eu tinha que agir, não importa de que jeito.
" Charles, bom dia."
" F. Bom dia. Veio renovar?"
" Sim, por favor."
" Um minuto." Charles digitou nervosamente no teclado do terminal da biblioteca "Mmm. Pronto. Para daqui sete dias. Todos eles."
" Obrigado, Charles. Obrigado mesmo. Mas eu preciso de mais um favor seu."
" Pode falar."
" C.M. 813 M117m. Quem pegou o livro antes de mim? Preciso muito saber..." Charles me olhou imensamente desconfiado. Mas, como era meu amigo e eu já havia saciado seu apetite literário várias vezes com livros emprestados, ele não hesitou em me pagar de volta o favor.
"Só um minuto. Vou consultar." De sua maneira usual, Charles digitou mais uma vez alguns comandos para consultar o bando de dados de empréstimo da biblioteca.
"Você quer o número de registro dela também?" Perguntou Charles, como se fosse cúmplice de um crime.
"Não. O primeiro nome já é o bastante."
"C." Respondeu Charles.
" Muito obrigado!" Respondi, sorrindo.
Fora fácil. Agora eu tinha o nome. E de que me adiantaria? Com certeza não iria escrever o nome numa cartolina e esperar no saguão da biblioteca dia após dia, até ela aparecer. Eu iria fazer algo bem mais sutil.
"C.
Preciso muito falar com você. Estou curioso e queria te fazer algumas perguntas. Uma resposta a esse bilhete já diria muito. "
Pus o bilhete no meio de 813 M117m. Não tive coragem de assinar. Mas mesmo assim me contentava com a idéia de que o mero fato dela achar o bilhete realmente diria muito. Se houvesse uma resposta para o bilhete, ela seria uma semelhante. Se não, era um caso para esquecer, uma coincidência. E se fosse coincidência, eu poderia dormir tranqüilo, sem mais perguntas sobre ela zunindo na minha mente.
Durante dias eu me sentei, não no meio das estantes como costumava, mas nas mesas de leitura, observando atentamente o livro onde eu tinha deixado o bilhete. Após ter que me ausentar do meu posto eu verificava o livro em procura de alguma resposta. Mas nenhuma veio. Tentei controlar minha ansiedade, que aliada à minha timidez latente não me deixava muita escolha senão esperar mais tempo. Mas embora eu relutasse em reconhecer, a idéia de que tudo aquilo não passara de algo fabricado no interior da minha cabeça de leitor inveterado ganhava terreno. Relutei em me convencer que aquilo era uma coincidência e nada mais.
Eu refleti sobre a situação como um todo. Consegui, em meio à minha ansiedade, me ausentar de mim mesmo e ver a situação por outro prisma: eu era um esnobe. Um esnobe intelectual. E como podia isso ser? Era simples. Eu criara aquela situação toda. Eu tinha o hábito de leitura compulsiva, o que me levava a achar que eu era alguém incomum em meio a todo o mundo. O centro do meu próprio universo. Mas eu não era. Os livros estavam na biblioteca para todos consultarem. Por quê haveriam de ter edições lá pelas quais apenas eu me interessaria. O fato de C. ter lido também os livros de C. só vinha a provar que todo o distúrbio causado não se dava porque o fato era incomum, mas porque ele era comum. Eu é que não aceitava. Eu era um leitor comum. Eu ter escolhido C. não me tornava especial. Era apenas obra do acaso. Bem como era obra do acaso C. estar sentada entre as estantes naquele dia.
Essa conclusão me trouxe alívio, por fim. Desisti do meu posto de observação. Desisti da minha vigilância rígida sobre os livros de C. Depois daquela devolução muitas semanas se passaram sem que eu sequer pensasse em voltar àquela estante. Procurei outros escritores, outros temas, outras coisas nas quais me concentrar. Os amores impossíveis de serem recebidos descritos por C. não eram mais tema central para mim.
Eu encontrei J. Outro autor fascinante pela crudeza de sua narrativa e pelo humor que ele punha em seus personagens. Seus personagens tinham vida. Ele escrevia sobre o nascimento de um escritor. E o nascimento do escritor, para ele, se dava ao mesmo tempo que o nascimento do homem contido no escritor. Embriões-escritores. Embriões-homens. Todos esperando para nascer. Gostei dessa idéia. Além do mais, eu havia feito progresso: J. não fora encontrado dentro da biblioteca, embora com certeza pertencesse também a 813. Devo dizer também, por vaidade, que J. não me foi sugerido por ninguém.
O engraçado desse evento todo, da descoberta de J., é que J. teve a vida muito parecida com a de C.: ambos tiveram doenças que tornavam escrever uma atividade quase insuportável. Ambos morreram jovens e amaram uma só pessoa na vida. E eles dois tinham B. em comum. B., que homenageara C. com um poema, fora admirador profundo de J. B. apenas se enveredou pelos caminhos da literatura porque um dia leu J. Achando toda essa coincidência fascinante, voltei um dia à biblioteca novamente com destino certo. 813. Dessa vez procurando por B. Escolhi, dentre os seus vários títulos lá disponíveis, um que me agradou e levei para casa. Antes de iniciar a leitura, folheei o volume em busca do pequeno papel com a data de devolução que o bibliotecário costuma colocar nas primeiras páginas. Não havia papel com data de devolução. Havia apenas um bilhete dobrado ao meio, escrito cuidadosamente, com letra de forma reta.
"Prezado admirador de C.,
Sua nota me perturbou por alguns dias. Quis responder logo, mas resolvi deixar a resposta num lugar menos óbvio. Tenho minhas razões. Você achar este bilhete realmente me dirá muito.
C.
P.S.: Achei o título deste volume apropriado para uma resposta minha."
Fiquei absolutamente perplexo com o que acabara de encontrar. Não consegui raciocinar direito por algumas boas horas. Li e reli o bilhete várias vezes. Queria ter certeza de que o bilhete era de C. Parece até hoje inacreditável que a cabeça de alguém possa funcionar dessa maneira. Eu estava maravilhado, e de certa forma abismado, em saber que tudo o que eu havia pensado de C. não passara de perda de tempo. Ela era uma leitora inveterada. Era, definitivamente, uma semelhante.
Me lembrei da primeira vez que a vi, sentada preguiçosamente entre as estantes, perdida entre os parágrafos de 813 M117m, imersa na prosa sensível e cativante de C. Tal lembrança me fez sorrir como eu não sorria há muito tempo. O seu P.S. também de certa forma denotava algo ligeiramente esnobe em seu caráter. Embora, claro, não deixasse de ser um comentário imensamente espirituoso.
Escrevi uma resposta à ela em um papel roxo, para que não houvesse chance dela não encontrar o bilhete. Pensei em por de volta em B., mas logo desisti em favor de C. Achei bem mais apropriado, afinal, foi por causa de C. que tudo começou. Se não fosse eu, meus hábitos e minhas excentricidades, nada disso teria acontecido. Causalidade. Nunca saberei.
Esperei aquele dia todo. Pensei que talvez naquele mesmo dia ela estivesse por lá e fizesse sua ronda habitual e descobrisse minha resposta esperando por ela. Mas ela não apareceu. Decidi voltar no dia seguinte.
O dia seguinte amanheceu chuvoso. O céu cinza-chumbo prognosticava um dia de chuva fina, irritante e contínua. Ponderei por alguns momentos se eu deveria ir até a biblioteca verificar se C. havia recebido sua reposta. E talvez, se ela fosse rápida, deixara alguma para mim. Apanhei o guarda-chuva e fui. Afinal, o que uma chuva apenas poderia fazer de mal?
Cheguei molhado até os ossos na biblioteca. Charles me olhou espantado e eu sorri para ele, como quem quer dizer 'não posso evitar estar molhado desse jeito'. Ele sorriu de volta, divertido pela minha falta de jeito. No segundo andar, penúltima estante, quarta prateleira de cima para baixo, os últimos livros na direita. C. O volume novo. Abri. Folheei. Não havia mais papel roxo. Ela havia recebido a resposta. Me voltei, sentando no chão e encostando na prateleira, com o volume na mão. Não havia quase ninguém na biblioteca, a chuva havia espantado a todos. Levantei-me, procurando por ela. Não estava a vista ali, perto de 813. Verifiquei todos os cantos da biblioteca. Ela não estava lá. Decidi ir embora, desapontado.
Abri meu guarda-chuva, ainda molhado, e prossegui de volta para casa Logo após a cobertura do corredor que levava à porta principal, onde eu estaria vulnerável às poças d'água e à chuva torrencial. C. apareceu, protegida por um guarda-chuva roxo. Sorri, tímido, assim que ela olhou para mim pela primeira vez. Percebi que ela tinha olhos negros, profundos e puxados quase à maneira oriental. Não consegui reagir e ela se aproximou o máximo que nossos guarda-chuvas permitiam. Retirou o bilhete do bolso e o balançou no ar, como se quisesse dizer algo apenas com o olhar. Eu não consegui entender. Ela chegou mais perto, junto a mim, fechando seu guarda-chuva, desnecessário na distância que ela se encontrava de mim. Tomou o meu das minhas mãos e o fechou também, nos deixando à mercê da chuva.
"Quero te responder que sim. Eu quero." disse ela.
E antes de fechar os olhos, percebi que ela me abraçava e que o papel roxo manchava minha camiseta branca, ajudado pela chuva.
Wednesday, February 27, 2008
Why I hated Juno or Teenagers' School of Bitchcraft and Assholery
Sim, eu odiei Juno. Todo mundo gostou, eu sei. Mulheres, crucifiquem-me se quiserem, mas eu odiei. Eu não sei porque, mas quando eu vi o estilinho da Diablo Cody no Oscar eu meio que entendi. São essas coisas irracionais que acontecem ao ser humano. Ela com aquele vestidinho vem cá meu puto, aquele ar dorothyparkeriano de me-deixe-quero-ser-indie me irritou. Enfim, como todo o resto da humanidade eu achei a Juno divertida, sacadinha, espertinha, bonitinha e até sexy, e me compadeci do fato dela ter engravidado do Bleecker. As coisas começaram a me incomodar quando ela foi à clínica de aborto e se achou boa demais para fazer um aborto, e deu aquela desculpinha esfarrapada de que os bebês tem unhas. Foi desculpa sim. Uma menina tão inteligente, sacadinha e com um laptop com acesso à wikipédia sabe que bebês não tem unhas, e isso não é um motivo para não abortar uma criança. Mas ainda assim, eu respeito a decisão dela. Juno. Depois do filme as coisas começaram a me incomodar enquanto eu ruminava. Discuti com a Rachel, que achou o máximo [INTERLÚDIO] engraçado como todas as meninas que gostaram do filme ou se identificam ou querem ser a Juno de alguma forma, sorry, mas observando bem acaba sendo verdade - não tente negar [FIM DO INTERLÚDIO], e coisas me vieram:- Me incomodou o fato de o Bleecker ter sido só um instrumento e saco de pancada da gravidez dela. Eu execro mulheres que acham que o universo gira em torno do conceito protofreudiano do desejo da vagina. É engraçado em filmes como Chicago, mas não na vida real. Se ela engravidou, ele devia ser no mínimo algo mais do que o último a saber e o primeiro a levar porrada pois ela está de mauhumorzinho (ahpaputaqueupariu). Tudo bem, ele é idiota, mas ela - como a porta voz e defesa da inteligência e da esperteza universal feminina em geral - devia ter comunicado ao pobre que ele estava prestes a ser pai.
- Me incomodou o fato dela ser dissimulada, pois ela flertou com o Mark várias vezes depois se fez de sonsa quando ele decidiu abandonar a Vanessa devido não a ela, mas aos pensamentos de juventude que ela evocava nele. Depois que isso acontece, ele sai da equação da cabeça da Juno como pai adotivo do filho dela - pois é um filme girl-power, logo os homens (e consequentemente a figura paterna) são supérfluos. O que é engraçado, sendo que ela foi criada pelo pai, que era meio banana, mas enfim.
- Me incomodou o fato de tudo ser uma grande tiração de sarro. O aborto é um sarro. A gravidez é um sarro. A paternidade é um sarro. Tudo é um sarro.
E no final, advinha para quem a nossa mãe adolescente volta? Para o trouxa do Paulie Bleecker, que canta aquela música chata que não para de tocar no rádio com aquela voz de taquara rachada. Até ela cansar dele e ficar grávida do leiteiro. E como é típico desse tipo de mulher: imaginem o Bleecker em 40 anos [...] igual ao pai dela.
A Diablo Cody ganhou um Oscar, agora ela pode começar a escrever coisas decentes.
A Diablo Cody ganhou um Oscar, agora ela pode começar a escrever coisas decentes.
O Fetiche do Mundo Corporativo
A razão pela qual eu nunca entrei no mundo corporativo para valer é o fato dele representar uma grande contradição para a qual não há uma resposta definitiva: o mundo corporativo apresenta o trabalho como uma não-vida, oposto da vida, o lado escuro da Lua. Como pode um cidadão passar oito horas diárias numa eterna espera pelas quatro que ele passará em casa, na rua, na chuva, na fazenda, sendo quem ele realmente é?
Mas o homo incredulus me perguntaria: mas quem disse que o trabalho é uma não-vida? Quem disse que você não é você no trabalho? [Pausa dramática] Bom... Quem realmente quer ter as qualidades necessárias para ser um bizzinisman de sucesso? Quem realmente tem o Roberto Justuscop como modelo de vida? [INTERLÚDIO] Tá, ele é rico. Ele volta apra a casa para as sagradas quatro horas de Justus sendo Justus e quem ele encontra? Ticiane Pinheiro. E ela vai te contar como ela passou o dia mangueirando as tetas da Karina Bacchi. Quem em sã consciência quer ser assim? Você quer mangueirar você as tetas da Karina Bacchi (isso vale se você for mulher também, pois invoca a contemplação do belo), my friend, não ouvir a sua esposa falando que ela o fez. E ela pergunta ao Justus o que ele fez: mais uma vez ele provou a todos que ele é fodão durante um almoço que provavelmente custou mais que um salário mínimo. [FIM DO INTERLÚDIO]. Enfim, você tem de ser: eficiente, motivado, pró-ativo (quem usa essa palavra numa conversa séria fora de uma empresa é um idiota, e tenho dito), pragmático. Deve ter people skills, manager skills, conflict resolution skills, leadership skills, ter inteligência normal, inteligência emocional e inteligência social (os dois últimos leia-se habilidade para evitar a vida pessoal). Quem é assim de fato? Resposta: ninguém. O que você faz? Resposta: finge. Quem nunca fingiu no mundo corporativo é duas coisas: desempregado ou mentiroso. Se você finge, o fingimento é um falácia de uma qualidade que você não possui, se você não possui, você mente, se você mente, badabim, o seu trabalho é uma não-vida.
Vamos aqui acabar com a palhaçada filosófica e chegar no ponto legal: desmistificar os aforismos acerca do mundo corporativo.
No mundo corporativo se ganha muito dinheiro;
Sonoro não. Você trabalha feito um filho da puta para que outro ganhe dinheiro por você, esperando que um dia algum filho da puta trabalhe para que você ganhe dinheiro. Mas se você já trabalhou a vida toda feito um filho da puta, você não está ganhando nada demais por ter um filho da puta trabalhando para você. No final, quem se deu bem foi só o primeiro cidadão que teve filhos da puta trabalhando para ele e não trabalhou nada, o resto só se ferrou.
No mundo corporativo você aprende muitas coisas;
Somente aquelas que são necessárias para a manutenção e preservação do mundo corporativo. Eu montei cursos e lecionei Inglês para uma empresa de consultoria (Camilinha, amor, oi) que tem orgulho de contratar engenheiros para fazer trabalho de office boy/programador de computador em regime de engenho de cana de açúcar. Conclusão: o mercado se orgulha de contratar um cidadão que estudou seis anos uma coisa que nunca vai usar como prova de esforço e valor pessoal. Prova de burrice e de estupidez e desperdício de mão-de-obra, isso sim! Em 400 A.C. Platão disse na República que cada homem tem sua virtude e sua techné (grego para 'profissão' ou 'técnica') e deve exercê-la de acordo. Funcionou por dois mil anos. Mas o mundo corporativo resolve reinventar-se: eles contratam pessoas para fazer o que elas não estudaram para fazer. Logo, no mundo corporativo, as chances são que você desaprenderá algo para o próprio cumprimento da sua função.
O mundo corporativo recompensa os seus valores pessoais e éticos;
É quase auto-explicativo que não. O conjunto de valores pessoais pregados pelo RH (os psicólogos e responsáveis pela lavagem cerebral) tem como característica um termo bem conhecido pelos próprios psicólgos: perversão. Perversão é quando você reverte o uso de alguma coisa para algo que vai contra o seu princípio de existência. Vamos à lista de decodificação de valores.
Mas o homo incredulus me perguntaria: mas quem disse que o trabalho é uma não-vida? Quem disse que você não é você no trabalho? [Pausa dramática] Bom... Quem realmente quer ter as qualidades necessárias para ser um bizzinisman de sucesso? Quem realmente tem o Roberto Justuscop como modelo de vida? [INTERLÚDIO] Tá, ele é rico. Ele volta apra a casa para as sagradas quatro horas de Justus sendo Justus e quem ele encontra? Ticiane Pinheiro. E ela vai te contar como ela passou o dia mangueirando as tetas da Karina Bacchi. Quem em sã consciência quer ser assim? Você quer mangueirar você as tetas da Karina Bacchi (isso vale se você for mulher também, pois invoca a contemplação do belo), my friend, não ouvir a sua esposa falando que ela o fez. E ela pergunta ao Justus o que ele fez: mais uma vez ele provou a todos que ele é fodão durante um almoço que provavelmente custou mais que um salário mínimo. [FIM DO INTERLÚDIO]. Enfim, você tem de ser: eficiente, motivado, pró-ativo (quem usa essa palavra numa conversa séria fora de uma empresa é um idiota, e tenho dito), pragmático. Deve ter people skills, manager skills, conflict resolution skills, leadership skills, ter inteligência normal, inteligência emocional e inteligência social (os dois últimos leia-se habilidade para evitar a vida pessoal). Quem é assim de fato? Resposta: ninguém. O que você faz? Resposta: finge. Quem nunca fingiu no mundo corporativo é duas coisas: desempregado ou mentiroso. Se você finge, o fingimento é um falácia de uma qualidade que você não possui, se você não possui, você mente, se você mente, badabim, o seu trabalho é uma não-vida.
Vamos aqui acabar com a palhaçada filosófica e chegar no ponto legal: desmistificar os aforismos acerca do mundo corporativo.
No mundo corporativo se ganha muito dinheiro;
Sonoro não. Você trabalha feito um filho da puta para que outro ganhe dinheiro por você, esperando que um dia algum filho da puta trabalhe para que você ganhe dinheiro. Mas se você já trabalhou a vida toda feito um filho da puta, você não está ganhando nada demais por ter um filho da puta trabalhando para você. No final, quem se deu bem foi só o primeiro cidadão que teve filhos da puta trabalhando para ele e não trabalhou nada, o resto só se ferrou.
No mundo corporativo você aprende muitas coisas;
Somente aquelas que são necessárias para a manutenção e preservação do mundo corporativo. Eu montei cursos e lecionei Inglês para uma empresa de consultoria (Camilinha, amor, oi) que tem orgulho de contratar engenheiros para fazer trabalho de office boy/programador de computador em regime de engenho de cana de açúcar. Conclusão: o mercado se orgulha de contratar um cidadão que estudou seis anos uma coisa que nunca vai usar como prova de esforço e valor pessoal. Prova de burrice e de estupidez e desperdício de mão-de-obra, isso sim! Em 400 A.C. Platão disse na República que cada homem tem sua virtude e sua techné (grego para 'profissão' ou 'técnica') e deve exercê-la de acordo. Funcionou por dois mil anos. Mas o mundo corporativo resolve reinventar-se: eles contratam pessoas para fazer o que elas não estudaram para fazer. Logo, no mundo corporativo, as chances são que você desaprenderá algo para o próprio cumprimento da sua função.
O mundo corporativo recompensa os seus valores pessoais e éticos;
É quase auto-explicativo que não. O conjunto de valores pessoais pregados pelo RH (os psicólogos e responsáveis pela lavagem cerebral) tem como característica um termo bem conhecido pelos próprios psicólgos: perversão. Perversão é quando você reverte o uso de alguma coisa para algo que vai contra o seu princípio de existência. Vamos à lista de decodificação de valores.
- Eficiência: Como todos fazem um trabalho X em Y tempo, você é eficiente se você faz 2X trabalho em Y/2 tempo. O que normalmente, segundo os avanços da física quântica, requer que você arranje algum palhaço para fazer por você sem levar crédito.
- Motivação: Pico da lavagem cerebral. É o estágio onde o indivíduo acredita que realmente fará diferença as 18 horas de trabalho diárias. É o mesmo valor ético que um terrorista suicida experimenta quando ele se explode na medina e depois, pairando acima dos vivos e vagando em direção à luz branca, ele ouve o Noticiário da Noite anunciar: "o terrorista matou três compatriotas, feriu duas velhinhas que iam à feira, matou três gatos, dois pombos e aleijou um papagaio, as velhinhas passam bem e receberam auta 5 minutos após o atentado."
- Pró-Atividade: Um termo técnico cunhado por Sigmund Freud e Zinedine Zidane, que consiste no ação de caráter reflexivo tomada no período de tempo entre o estímulo causado pelo provocador e a reação do superego. A Pró-Atividade requer um treino de caráter avançado como previsto pela psicologia behaviorista de B. F. Skinner e os Jogos de Linguagem de Ludwig Wittgenstein. Exemplo:
Chefe: Quem vai revisar e transcrever os relatórios dos últimos 12 anos da companhia que estão mimeografados para o nosso único editor de texto licenseado, o notepad?
Funcionário Pró-Ativo: Eu faço.
Superego do Funcionário Pró-Ativo: NÃO... [...] para quê você foi se oferecer, seu viado?
Funcionário Pró-Ativo [murmurando para si mesmo]: Caralho...
Funcionário Pró-Ativo: Eu faço.
Superego do Funcionário Pró-Ativo: NÃO... [...] para quê você foi se oferecer, seu viado?
Funcionário Pró-Ativo [murmurando para si mesmo]: Caralho...
- Pragmatismo: Princípio artificial que significa objetividade. No mundo corporativo significa que você deve fazer o máximo de tarefas no mínimo de tempo. Porém, qualquer membro de uma corporação sabe que o princípio da valorização do tempo e o hábito, tal qual definido pelo filósofo David Hume, sobrepuja o princípio do Pragmatismo. Em outras palavras, se você fizer algo bem e rápido, o seu chefe se acostumará com isso e o seu empenho não será notado. Claro exemplo da perversão e da futilidade do uso do termo.
- People skills, manager skills, conflict resolution skills, leadership skills: mais conhecidos como o 'quadrângulo do mal', tais conceitos foram introduzidos na cultura corporativa por figuras como Gaius Julius Caesar, Nicolau Maquiavel, Francis Bacon, Tomás de Torquemada, Adolf Hitler e Darth Vader. Consitem no ato de convencer as pessoas a trabalharem mais, do jeito que você quer, sem brigarem pelos resultados ou pela autoria do serviço (o autor será, evidente, você) e te acharem o máximo por isso sem absolutamente nenhum incentivo. Habilidade largamente possuída pelos senhores feudais de outrora, hoje uma tal escola perto da minha casa, uma tal de Harvard Business School, ensina por 50 mil dólares anuais. Eu cobro menos, 25 mil lascas e estamos conversadíssimos.
- Inteligência normal, inteligência emocional e inteligência social: Finalmente chegamos à inversão de valores no seu exemplo par excellence. Aqui o jugo da dominação funciona sobre você mesmo: como você consegue abdicar das suas 4 horas diárias sagradas e se recompensar por isso? Fácil: chame o ato de auto-negação da vida maior em prol de um futuro duvidoso de inteligência. Como o termo Inteligência e seus subprodutos são de fato complexos e de difícil explanação mesmo - além de passatempo de marginais, perdedores, viados, hippies e desocupados em geral como filósofos, cientistas sociais, antropólogos e cientistas da cognição - fica tudo la même chose: ninguém explica a inteligência e a burrice fica por conta também.
Enfim, fellas. O trabalho corporativo é um fetiche - e isso é sério. No sentido mais Marxista possível: o trabalho corporativo é um objeto inútil por si só, investido de um poder irreal materializado no nome e posição da empresa. Seu trabalho, mesmo não sendo o que você faz - sendo a sua não-vida, determina a sua posição social, sexual e o que os seus amigos acham de você. Isso diz mais sobre as pessoas que compram o fetiche como real do que sobre o trabalho em si.
E eu termino com uma nota triste: Nesse trabalho que eu desenvolvi para essa empresa de consultoria eu: a) ganhava mais do que a maioria deles, b) trabalhava 1/4 das horas, c) não me sujeitava à hierarquia, pos eu não era membro da corporação. Ainda assim, era considerado por eles como segunda classe, vassalo e serviçal. As situações de conflito com a direção da empresa se davam pelo fato de que eu queria ensinar inglês, os alunos não queriam aprender, e eu devia encontrar um meio termo. Isso, senhores, foi uma pequena piada sobre o mundo corporativo. A realidade é muito pior.
E eu termino com uma nota triste: Nesse trabalho que eu desenvolvi para essa empresa de consultoria eu: a) ganhava mais do que a maioria deles, b) trabalhava 1/4 das horas, c) não me sujeitava à hierarquia, pos eu não era membro da corporação. Ainda assim, era considerado por eles como segunda classe, vassalo e serviçal. As situações de conflito com a direção da empresa se davam pelo fato de que eu queria ensinar inglês, os alunos não queriam aprender, e eu devia encontrar um meio termo. Isso, senhores, foi uma pequena piada sobre o mundo corporativo. A realidade é muito pior.
Monday, February 25, 2008
Da Virtude Real e Imaginária

"Sócrates considerava uma aflição que beira a loucura, imaginar-se possuidor de uma virtude que não se tem; tal ilusão é muito mais perigosa que o seu oposto, a ilusão de sofrer por uma falha ou vício. Pois da segunda ilusão pode-se facilmente recuperar, ao passo que a primeira ilusão faz o ser humano pior a cada dia que passa."
Friedrich Nietzsche, "Vom Nutzen und Nachteil der Historie für das Leben".
A criatividade faz com que a arte diga sem palavras. Esse é o grande tema do filme 'Lars and the Real Girl'. Com certeza um dos filmes mais bem sacados e fora do comum que eu vi recentemente (Além de 'Lost'). Bem mais bem sacado que Juno, se você me perguntar [INTERLÚDIO] (Juno é uma garota chata, é aquela menina que você beija pois ela é espertinha e sacadinha, mas cansa depois de um mês pois ela entregou tudo no primeiro encontro - todas as piadas, todos os chistes e mariolas de que ela é capaz para te manter interessado. Tira a gatinha da Ellen Page e põe a feiosa da Heather Matarazzo e você tem a Juno da vida real. Em uma frase: Juno é a versão emo e suburbana de Kids e Gumo - se você não assistiu, assista! Do it!) [FIM DO INTERLÚDIO]. O filme conta a história de Lars, um cara tímido que evita a companhia de humanos sempre que possível - porém, ele trabalha num escritório qualquer e mora na garagem nos fundos da casa do seu irmão Gus.
Gus compra uma boneca e chama de namorada. Pura e simplesmente. O nome dela é Bianca e ela é meio brasileira, meio dinamarquesa.
Bianca é religiosa, não dorme no mesmo quarto que Lars. Bianca faz trabalho voluntário na igreja e na escola e tem um emprego de meio-período em uma loja de roupas. Bianca tem uma agenda cheia e ainda acha tempo para ir à missa aos domingos.
E, sem palavras - pois Lars assim o escolheu - por ser a projeção, o fetiche, o silêncio, a compreensão, e muitas outras coisas que as pessoas da cidade vêem em Bianca, ela muda a vida de todos. Ela ensina o contrário do que prega esse post só porque ele existe.
Quem dera tivéssemos a maturidade da loucura de Lars para escolher a companhia do silêncio ao invés das palavras. Quem dera aprendessemos a conviver com o reflexo de nós mesmos, e pudéssemos externar os nossos conflitos, insatisfações e pudéssemos discutir com eles e superar dificuldades sem que ourtas pessoas sejam nosso alvo. Parece natural posto dessa maneira: primeiro aprendemos a conviver com nós mesmos e depois, nos envolvemos com o outro. Lars explicou melhor, veja no filme.
E no final Bianca era muito real.
Sunday, February 24, 2008
ouverture
Eu acho um absurdo a hipocrisia humana.
Não é simplismo, falta do que fazer ou ingenuidade se indignar com a hipocrisia humana e o fatode que as pessoas não estão nem aí para você em gênero, número e grau. Isso não é um sinal defraqueza e sim um traço peculiar de personalidade: a insatisfação. Análise nua e crua da minhasatisfação particular me leva a crer que a psyche humana sabiamente desenvolve ciclos para quevocê consiga conviver com a insatisfação derivada do fato de que as pessoas são hipócritas. Pessoas-como-eu sabem do que eu estou falando.
O ciclo parte da surpresa ruim para a insatisfação para a auto-indulgência para o vício (em qualquer coisa) para a sublimação para a aceitação para a nova tentativa e de volta para a surpresa. Evolutivamente. A cada vez que você se surpreende (não do jeito bom) com esse traço presente nas pessoas o ciclo sobe de nível. Até que uma hora você está num lugar onde certas coisas não te atingem mais, e você sente um certo medo.
Hoje foi o dia da surpresa. Novamente. Embora eu soubesse o que iria acontecer (pessoas-como-eu desenvolvem um talento similar ao de agentes secretos para reconhecer certos tipos de pessoa) ainda assim cada passo da valsa parece que é novo, talvez pelo otimismo de achar que alguém vá um dia parar a dança e te supreender de verdade, mas isso não acontece - não acontece.
Ia ser um café num lugar charmoso hoje mas não foi - tanto melhor. As histórias contadas, as situações, os dilemas apontavam para o fim súbito, para a situação fatal onde eu, no meu ballo di maschera defensivo, sumo para nunca mais voltar, envolto num mistério que é fácilmente solúvel, numa farsa que mal existe mas que as pessoas não notam: fruto da hipocrisia.
Estou fora. Ou eu mergulho - ou fico fora da água.
Não é simplismo, falta do que fazer ou ingenuidade se indignar com a hipocrisia humana e o fatode que as pessoas não estão nem aí para você em gênero, número e grau. Isso não é um sinal defraqueza e sim um traço peculiar de personalidade: a insatisfação. Análise nua e crua da minhasatisfação particular me leva a crer que a psyche humana sabiamente desenvolve ciclos para quevocê consiga conviver com a insatisfação derivada do fato de que as pessoas são hipócritas. Pessoas-como-eu sabem do que eu estou falando.
O ciclo parte da surpresa ruim para a insatisfação para a auto-indulgência para o vício (em qualquer coisa) para a sublimação para a aceitação para a nova tentativa e de volta para a surpresa. Evolutivamente. A cada vez que você se surpreende (não do jeito bom) com esse traço presente nas pessoas o ciclo sobe de nível. Até que uma hora você está num lugar onde certas coisas não te atingem mais, e você sente um certo medo.
Hoje foi o dia da surpresa. Novamente. Embora eu soubesse o que iria acontecer (pessoas-como-eu desenvolvem um talento similar ao de agentes secretos para reconhecer certos tipos de pessoa) ainda assim cada passo da valsa parece que é novo, talvez pelo otimismo de achar que alguém vá um dia parar a dança e te supreender de verdade, mas isso não acontece - não acontece.
Ia ser um café num lugar charmoso hoje mas não foi - tanto melhor. As histórias contadas, as situações, os dilemas apontavam para o fim súbito, para a situação fatal onde eu, no meu ballo di maschera defensivo, sumo para nunca mais voltar, envolto num mistério que é fácilmente solúvel, numa farsa que mal existe mas que as pessoas não notam: fruto da hipocrisia.
Estou fora. Ou eu mergulho - ou fico fora da água.
Eu estou seco.
___________________
"Song"
by Trumbull Stickney (1902)
A bud has burst on the upper bough
(The linnet sang in my heart to-day);
I know there the pale green grasses show
By a tiny runnel, off the way,
And the earth is wet.
(A cuckoo said in my brain: “Not yet.”)
I nabbed the fly in a briar rose
(The linnet to-day in my heart did sing);
Last night, my head tucked under my wing.
I dreamed of a green moon-moth that glows
Thro’ ferns of June.
(A cuckoo said in my brain: “So soon?”)
Good-bye, for the pretty leaves are down
(The linnet sang in my heart to-day);
The last gold but of upland’s mown,
And most of summer has blown away
Thro’ the garden gate.
(A cuckoo said in my brain: “Too late.”)
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