Amanhã eu vou comprar uma mala.
Pois a minha mala menor se fué nas mãos bonitinhas de uma francesa má. Quem diria, eu farei minha primeira viagem de férias totalmente sozinho. Cansei de lutar contra o fato de que nós seguimos por essa vida sós e que toda pessoa que a gente encontra pelo caminho que nos traz algo de bom é lucro - e o resto é perda de tempo. Nessa hora eu entendo as peregrinações, os votos de silêncio, a meditação, os monges budistas, o que quer que seja que te tire da consciência da grande condenação a ser livre - do resíduo existencial.
Mas a parte mal-do-século desse post acabou. Eu achei a mulher da minha vida no YouTube. Sim, a mulher da minha vida no YouTube. [NAHT!] Mas eu teria um caso, sério. A moça criativa musicou genialmente um contou meu (que eu escrevi em 2005) com uma música da Fiona Apple (com esssa sim eu casaria = linda e neurótica). Enfim. Aqui vai o conto, republicado, e ao seu final o vídeo da genial Grapes.
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813 M117m
Felipe Casadei
Eu subi ao segundo andar da biblioteca naquela manhã com destino certo. No sistema de Dewey, 813: Ficção Norte-Americana. Tinha certeza absoluta do que queria e onde estava. Aquelas estantes eram como o interior do meu próprio guarda-roupa. Eu sabia onde tudo estava. Aquilo era o meu pequeno reino. A autora que eu queria estava na penúltima estante do corredor, quarta prateleira de cima para baixo, os últimos livros na direita. C. E lá estariam todos os livros dela de que a biblioteca dispunha, os quais eu estava acostumado a ver ordenados sempre da mesma maneira, afinal, era sempre eu que fazia isso. Havia as duas edições relativamente novas das suas novelas que, embora fossem de bolso, eram as únicas legíveis pois serviam de casa para ácaros jovens com os quais meu sistema respiratório conseguia se entender. O resto eram edições compradas nos anos sessenta, cujos ácaros, já aposentados, não conseguiam conviver com o ar que entrava e saía dos meus pulmões enquanto eu tentava ler. Logo, eu tinha que me contentar com as edições mais novas e deixar o resto de lado.
Mas naquela manhã eu não achei uma das edições novas. Alguém havia me descoberto.
Tomei a liberdade de reservar o volume retirado com o bibliotecário, a fim de que o desconforto que me trazia não ter um dos meus livros favoritos à mão não se estendesse por mais do que alguns dias. O volume estaria de volta em três dias. Era o que eu teria que esperar até que o anônimo invasor do meu reino de fronteira invisível fosse destituído de sua posse ilegal.
Enquanto vagava pelas outras estantes, perplexo, tentei refletir sobre a razão pela qual aquele fato simples e corriqueiro me incomodou tanto. E comecei a me lembrar de como tudo aquilo começara.
Desnecessário dizer que eu sempre gostei de ler. E as bibliotecas para mim sempre foram pequenas ilhas de tranqüilidade num universo de ambientes onde eu não conseguia me encaixar. Lá eu conseguia me indulgir a certas particularidades bizarras do meu hedonismo mais íntimo. Tais como sentar no chão entre as estantes e entrar num universo qualquer de um escritor escolhido a esmo pela estante. Foi assim que eu conheci C. A novelista norte americana que escrevia sobre amores impossíveis de serem recebidos e fora homenageada por B. com um poema. Foi assim que eu conhecera, no passado, M., J., V., S., D., e muitos outros mestres cuja menção é desnecessária. Foi assim também que eu me apaixonei pelos romances ingleses.
Sempre acreditei que essa atividade me levaria a conhecer universos inteiros apenas pelo prazer de aventurar-me sozinho, sem ter que confiar na palavra de ninguém. Eu mesmo podia navegar no oceano da literatura sem ter de me preocupar com o que as pessoas iriam dizer do que eu lia, sem tampouco dever nada a ninguém. Com o tempo eu me isolei nessa atividade. Tornou-se uma imensa fonte de prazer, andar solitário e sem rumo por entre os livros, olhando detalhes, olhando as capas, cheirando-os, fantasiando, imaginando quem lera aqueles livros todos no passado e por quê. Me viciei também em ler livros sobre escritores, livros que contam como os escritores chegaram às suas idéias brilhantes e inovadoras, e como o dom de observação e a sentimentalidade singular deles os guiaram pelos meandros de suas histórias, pelos conflitos de seus personagens. Só eles tem a chave secreta do livro da vida de todos os personagens. Quem nunca imaginou o que veio antes ou depois da história de determinado personagem? E o que determinado personagem faria se estivesse em seu lugar, na vida real? Quantas decisões não tomamos espelhados nesse raciocínio quase que involuntário? Os livros te dão essa perspectiva, os livros alimentam a sua imaginação. O único detalhe notável é que a minha cometia o pecado da gula.
Por quê diabos alguém havia entrado no universo de C. comigo exatamente naquela semana? Queria saber quem era e enfiar o dedo na cara do indivíduo e expulsá-lo do meu pequeno reino. Mas eu não podia. A educação e a covardia me impediam. O máximo que eu pude fazer foi esperar os três dias.
Três dias depois o livro estava lá, são e salvo na reserva esperando por mim. Tê-lo em minhas mãos me trouxe muito alívio. Eu tinha, enfim, posto o dedo na cara do intruso. O livro fora devolvido, sem delongas, sem protestos. Eu podia lê-lo uma, duas, três vezes se quisesse, sem ser incomodado novamente. Tudo isso eu pensei enquanto o funcionário cadastrava o livro em meu nome e o desmagnetizava para que eu pudesse sair da biblioteca sem acionar o alarme. Mas meu adversário definitivamente era páreo para mim. O funcionário anunciou que havia uma reserva para dali sete dias. Eu devia retornar o livro à biblioteca, sem falta, em sete dias.
Senti o sangue subir-me à cabeça. Saí da biblioteca enfurecido, com passos pesados, pensando em trucidar o ser que ousava invadir o momento mais cândido da minha tranqüilidade. Me sentia injustiçado, acima de tudo. Tivera o trabalho de escolher uma autora cult o suficiente para evitar qualquer disputa por lançamentos em livrarias populares ou para, se quisesse, pesquisar a vida e a obra da autora com pessoas que genuinamente se interessavam pelo seu trabalho e por como a sua vida fora dolorosamente convertida em arte imortal. Ou ainda, ser um dos primeiros no mundo a pesquisar seus manuscritos, e talvez sentir o prazer infindável de encontrar um rascunho, uma carta, uma nota deixada de lado pelos amigos e família da autora falecida que leram em primeira mão seu legado ao mundo. Mas não. Existia alguém ali, próximo, talvez naquele mesmo corredor, que me espreitava e queria um pedaço da minha diversão particular.
Não consegui ler o livro. A pressão era grande demais e eu não conseguia me concentrar. Tentei várias vezes mas não passei das primeiras cinco páginas. Passei os sete dias olhando para o livro na minha escrivaninha, sem nada poder fazer. Absolutamente nada. Pensei em roubar o livro da biblioteca, voltar lá e dizer simplesmente que eu perdi o livro. Talvez tivesse que pagar o livro ou achar algum da autora e repor. Sim. Era antiético. Mas dessa forma eu estaria livre para sempre do terror de talvez ter que trilhar meu caminho entre as estantes e ver meu reino arrasado, enfrentar a ausência do livro como prova cabal da realidade que se impunha sobre mim.
Contudo, no sétimo dia, o livro foi devolvido por mim. Sem protesto nem roubo. Resolvi aceitar a realidade e seguir adiante. Pensei em mudar minha preferência talvez para 833: Ficção Alemã. Lá com certeza a chance de me deparar com alguém usurpando meu território de forma tão explícita seria menor. Me condenei rapidamente. Dessa forma tudo estaria arruinado. Onde estaria o prazer imenso em simplesmente escolhei um volume a esmo e levantar minha âncora deste mundo? Eu seria, caso aceitasse essa cisão em meu território, apenas alguém limitado pelos códigos. O meu universo de escolha seria somente após o 833. Mas e o resto? E se eu tivesse perdido algum excelente escritor pelo caminho? Talvez não fosse como C., mas poderia ser talvez um K. ou ainda um P. Não! Definitivamente as coisas não seriam as mesmas depois desse evento simples, mas catastrófico. Depois de devolver o livro resolvi subir novamente ao segundo andar e pensar um pouco. Deparar comigo mesmo visto de um ângulo não muito agradável definitivamente não era prazeiroso. Eu reagia de forma totalmente inconsciente e instintiva. Não conseguia me sentir confortável da mesma forma que antes. Sentei entre as estantes. 812: Drama Americano. T. Nunca havia lido nada dele, embora seus títulos fossem interessantes. Entre as estantes, percebi uma sombra no corredor adjacente. 813. Alguém se aproximava. Não me mexi. Não queria fazer barulho algum. Eu observaria. E caso fosse o usurpador sorrateiro, ele seria implacavelmente confrontado.
A sombra adentrava o corredor. De onde eu estava, tinha vista por entre as prateleiras e poderia ver exatamente onde ele pararia e, aliado a meus conhecimentos do território, saberia exatamente qual obra de qual escritor estava consultando. Silêncio. A sombra se movia em direção ao fim do corredor, mais e mais próximo de 813. A sombra agachou-se. Precisamente em frente ao local onde eu estava sentado e encolhido em silêncio. 813 M117m. Eu estava com certeza defronte meu inimigo, separado apenas por alguns centímetros, duas estantes de ferro e duas fileiras de livros que impediam que trocássemos um olhar livre. Tentei decidir o que fazer rapidamente. Escolhi me levantar devagar e passar por entre as estantes, fingindo apenas estar passando, com destino a outra estante mais à frente, dessa forma, poderia ver meu inimigo sem que este imaginasse que eu estava em seu encalço.
O que eu vi não poderia ser mais surpreendente: Ela estava sentada, encostada na estante, lendo o outro volume disponível de C., exatamente do mesmo modo que eu costumava fazer. Reconheci imediatamente a contracapa verde-clara. Quis surpreende-la no ato, perguntar se ela era quem ousava reservar o livro depois de mim. Mas não pude. Fui fraco, como sempre. Segui adiante, buscando refúgio no corredor seguinte. Onde, por entre as prateleiras, eu conseguiria vê-la. Milhões de perguntas zuniam dentro da minha mente, mas eu só conseguia observá-la, em silêncio. Ela tinha cabelos pretos curtos, ligeiramente ondulados, um pouco acima dos ombros. Era pequena, magra e morena com traços bem delineados. As mãos eram ágeis ao virar as páginas, angulosas, de unhas curtas bem feitas. Ela vestia uma camiseta azul-clara, jeans azul-escuro e tênis brancos de corrida. Não conseguia ver mais nada de onde eu estava, observando-a quase covardemente pelas costas. Senti uma familiaridade absolutamente desconcertante naquela cena. Ela sentada no chão, despreocupada, lendo C., matando o tempo, como se tivesse saído de uma lembrança minha.
Tive medo. O que eu faria depois de saber o que sabia? Não sabia como nem por quê, mas sabia que tinha que reagir de certa forma. Aquilo parecia uma ironia cósmica, saber que meu universo era invadido não por um inimigo, mas por um semelhante. Tinha de descobrir mais sobre ela, mas com certeza isso não se daria pelas vias normais. Invariavelmente seria algo indireto, escuso, tímido, como eu era.
Muitos dias se passaram. Eu devolvi o livro em seu lugar, tentando inutilmente utilizá-lo como isca. Mas ela não apareceu mais para pegá-lo. Me perguntei se ela não seria somente uma leitora, não uma semelhante. Talvez ela não fosse como eu, afinal. Talvez ela sim estaria seguindo uma recomendação e estava ali por acaso. Talvez aquele gesto tão familiar para mim não fosse nada mais que um acaso. Mas na verdade isso tudo me confundia mais ainda, me empurrava na direção da curiosidade. Quanto mais perguntas eu fazia, mais eu queria respondê-las e isso não fazia a lembrança dela desaparecer. Eu tinha que agir, não importa de que jeito.
" Charles, bom dia."
" F. Bom dia. Veio renovar?"
" Sim, por favor."
" Um minuto." Charles digitou nervosamente no teclado do terminal da biblioteca "Mmm. Pronto. Para daqui sete dias. Todos eles."
" Obrigado, Charles. Obrigado mesmo. Mas eu preciso de mais um favor seu."
" Pode falar."
" C.M. 813 M117m. Quem pegou o livro antes de mim? Preciso muito saber..." Charles me olhou imensamente desconfiado. Mas, como era meu amigo e eu já havia saciado seu apetite literário várias vezes com livros emprestados, ele não hesitou em me pagar de volta o favor.
"Só um minuto. Vou consultar." De sua maneira usual, Charles digitou mais uma vez alguns comandos para consultar o bando de dados de empréstimo da biblioteca.
"Você quer o número de registro dela também?" Perguntou Charles, como se fosse cúmplice de um crime.
"Não. O primeiro nome já é o bastante."
"C." Respondeu Charles.
" Muito obrigado!" Respondi, sorrindo.
Fora fácil. Agora eu tinha o nome. E de que me adiantaria? Com certeza não iria escrever o nome numa cartolina e esperar no saguão da biblioteca dia após dia, até ela aparecer. Eu iria fazer algo bem mais sutil.
"C.
Preciso muito falar com você. Estou curioso e queria te fazer algumas perguntas. Uma resposta a esse bilhete já diria muito. "
Pus o bilhete no meio de 813 M117m. Não tive coragem de assinar. Mas mesmo assim me contentava com a idéia de que o mero fato dela achar o bilhete realmente diria muito. Se houvesse uma resposta para o bilhete, ela seria uma semelhante. Se não, era um caso para esquecer, uma coincidência. E se fosse coincidência, eu poderia dormir tranqüilo, sem mais perguntas sobre ela zunindo na minha mente.
Durante dias eu me sentei, não no meio das estantes como costumava, mas nas mesas de leitura, observando atentamente o livro onde eu tinha deixado o bilhete. Após ter que me ausentar do meu posto eu verificava o livro em procura de alguma resposta. Mas nenhuma veio. Tentei controlar minha ansiedade, que aliada à minha timidez latente não me deixava muita escolha senão esperar mais tempo. Mas embora eu relutasse em reconhecer, a idéia de que tudo aquilo não passara de algo fabricado no interior da minha cabeça de leitor inveterado ganhava terreno. Relutei em me convencer que aquilo era uma coincidência e nada mais.
Eu refleti sobre a situação como um todo. Consegui, em meio à minha ansiedade, me ausentar de mim mesmo e ver a situação por outro prisma: eu era um esnobe. Um esnobe intelectual. E como podia isso ser? Era simples. Eu criara aquela situação toda. Eu tinha o hábito de leitura compulsiva, o que me levava a achar que eu era alguém incomum em meio a todo o mundo. O centro do meu próprio universo. Mas eu não era. Os livros estavam na biblioteca para todos consultarem. Por quê haveriam de ter edições lá pelas quais apenas eu me interessaria. O fato de C. ter lido também os livros de C. só vinha a provar que todo o distúrbio causado não se dava porque o fato era incomum, mas porque ele era comum. Eu é que não aceitava. Eu era um leitor comum. Eu ter escolhido C. não me tornava especial. Era apenas obra do acaso. Bem como era obra do acaso C. estar sentada entre as estantes naquele dia.
Essa conclusão me trouxe alívio, por fim. Desisti do meu posto de observação. Desisti da minha vigilância rígida sobre os livros de C. Depois daquela devolução muitas semanas se passaram sem que eu sequer pensasse em voltar àquela estante. Procurei outros escritores, outros temas, outras coisas nas quais me concentrar. Os amores impossíveis de serem recebidos descritos por C. não eram mais tema central para mim.
Eu encontrei J. Outro autor fascinante pela crudeza de sua narrativa e pelo humor que ele punha em seus personagens. Seus personagens tinham vida. Ele escrevia sobre o nascimento de um escritor. E o nascimento do escritor, para ele, se dava ao mesmo tempo que o nascimento do homem contido no escritor. Embriões-escritores. Embriões-homens. Todos esperando para nascer. Gostei dessa idéia. Além do mais, eu havia feito progresso: J. não fora encontrado dentro da biblioteca, embora com certeza pertencesse também a 813. Devo dizer também, por vaidade, que J. não me foi sugerido por ninguém.
O engraçado desse evento todo, da descoberta de J., é que J. teve a vida muito parecida com a de C.: ambos tiveram doenças que tornavam escrever uma atividade quase insuportável. Ambos morreram jovens e amaram uma só pessoa na vida. E eles dois tinham B. em comum. B., que homenageara C. com um poema, fora admirador profundo de J. B. apenas se enveredou pelos caminhos da literatura porque um dia leu J. Achando toda essa coincidência fascinante, voltei um dia à biblioteca novamente com destino certo. 813. Dessa vez procurando por B. Escolhi, dentre os seus vários títulos lá disponíveis, um que me agradou e levei para casa. Antes de iniciar a leitura, folheei o volume em busca do pequeno papel com a data de devolução que o bibliotecário costuma colocar nas primeiras páginas. Não havia papel com data de devolução. Havia apenas um bilhete dobrado ao meio, escrito cuidadosamente, com letra de forma reta.
"Prezado admirador de C.,
Sua nota me perturbou por alguns dias. Quis responder logo, mas resolvi deixar a resposta num lugar menos óbvio. Tenho minhas razões. Você achar este bilhete realmente me dirá muito.
C.
P.S.: Achei o título deste volume apropriado para uma resposta minha."
Fiquei absolutamente perplexo com o que acabara de encontrar. Não consegui raciocinar direito por algumas boas horas. Li e reli o bilhete várias vezes. Queria ter certeza de que o bilhete era de C. Parece até hoje inacreditável que a cabeça de alguém possa funcionar dessa maneira. Eu estava maravilhado, e de certa forma abismado, em saber que tudo o que eu havia pensado de C. não passara de perda de tempo. Ela era uma leitora inveterada. Era, definitivamente, uma semelhante.
Me lembrei da primeira vez que a vi, sentada preguiçosamente entre as estantes, perdida entre os parágrafos de 813 M117m, imersa na prosa sensível e cativante de C. Tal lembrança me fez sorrir como eu não sorria há muito tempo. O seu P.S. também de certa forma denotava algo ligeiramente esnobe em seu caráter. Embora, claro, não deixasse de ser um comentário imensamente espirituoso.
Escrevi uma resposta à ela em um papel roxo, para que não houvesse chance dela não encontrar o bilhete. Pensei em por de volta em B., mas logo desisti em favor de C. Achei bem mais apropriado, afinal, foi por causa de C. que tudo começou. Se não fosse eu, meus hábitos e minhas excentricidades, nada disso teria acontecido. Causalidade. Nunca saberei.
Esperei aquele dia todo. Pensei que talvez naquele mesmo dia ela estivesse por lá e fizesse sua ronda habitual e descobrisse minha resposta esperando por ela. Mas ela não apareceu. Decidi voltar no dia seguinte.
O dia seguinte amanheceu chuvoso. O céu cinza-chumbo prognosticava um dia de chuva fina, irritante e contínua. Ponderei por alguns momentos se eu deveria ir até a biblioteca verificar se C. havia recebido sua reposta. E talvez, se ela fosse rápida, deixara alguma para mim. Apanhei o guarda-chuva e fui. Afinal, o que uma chuva apenas poderia fazer de mal?
Cheguei molhado até os ossos na biblioteca. Charles me olhou espantado e eu sorri para ele, como quem quer dizer 'não posso evitar estar molhado desse jeito'. Ele sorriu de volta, divertido pela minha falta de jeito. No segundo andar, penúltima estante, quarta prateleira de cima para baixo, os últimos livros na direita. C. O volume novo. Abri. Folheei. Não havia mais papel roxo. Ela havia recebido a resposta. Me voltei, sentando no chão e encostando na prateleira, com o volume na mão. Não havia quase ninguém na biblioteca, a chuva havia espantado a todos. Levantei-me, procurando por ela. Não estava a vista ali, perto de 813. Verifiquei todos os cantos da biblioteca. Ela não estava lá. Decidi ir embora, desapontado.
Abri meu guarda-chuva, ainda molhado, e prossegui de volta para casa Logo após a cobertura do corredor que levava à porta principal, onde eu estaria vulnerável às poças d'água e à chuva torrencial. C. apareceu, protegida por um guarda-chuva roxo. Sorri, tímido, assim que ela olhou para mim pela primeira vez. Percebi que ela tinha olhos negros, profundos e puxados quase à maneira oriental. Não consegui reagir e ela se aproximou o máximo que nossos guarda-chuvas permitiam. Retirou o bilhete do bolso e o balançou no ar, como se quisesse dizer algo apenas com o olhar. Eu não consegui entender. Ela chegou mais perto, junto a mim, fechando seu guarda-chuva, desnecessário na distância que ela se encontrava de mim. Tomou o meu das minhas mãos e o fechou também, nos deixando à mercê da chuva.
"Quero te responder que sim. Eu quero." disse ela.
E antes de fechar os olhos, percebi que ela me abraçava e que o papel roxo manchava minha camiseta branca, ajudado pela chuva.
Pois a minha mala menor se fué nas mãos bonitinhas de uma francesa má. Quem diria, eu farei minha primeira viagem de férias totalmente sozinho. Cansei de lutar contra o fato de que nós seguimos por essa vida sós e que toda pessoa que a gente encontra pelo caminho que nos traz algo de bom é lucro - e o resto é perda de tempo. Nessa hora eu entendo as peregrinações, os votos de silêncio, a meditação, os monges budistas, o que quer que seja que te tire da consciência da grande condenação a ser livre - do resíduo existencial.
Mas a parte mal-do-século desse post acabou. Eu achei a mulher da minha vida no YouTube. Sim, a mulher da minha vida no YouTube. [NAHT!] Mas eu teria um caso, sério. A moça criativa musicou genialmente um contou meu (que eu escrevi em 2005) com uma música da Fiona Apple (com esssa sim eu casaria = linda e neurótica). Enfim. Aqui vai o conto, republicado, e ao seu final o vídeo da genial Grapes.
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813 M117m
Felipe Casadei
Eu subi ao segundo andar da biblioteca naquela manhã com destino certo. No sistema de Dewey, 813: Ficção Norte-Americana. Tinha certeza absoluta do que queria e onde estava. Aquelas estantes eram como o interior do meu próprio guarda-roupa. Eu sabia onde tudo estava. Aquilo era o meu pequeno reino. A autora que eu queria estava na penúltima estante do corredor, quarta prateleira de cima para baixo, os últimos livros na direita. C. E lá estariam todos os livros dela de que a biblioteca dispunha, os quais eu estava acostumado a ver ordenados sempre da mesma maneira, afinal, era sempre eu que fazia isso. Havia as duas edições relativamente novas das suas novelas que, embora fossem de bolso, eram as únicas legíveis pois serviam de casa para ácaros jovens com os quais meu sistema respiratório conseguia se entender. O resto eram edições compradas nos anos sessenta, cujos ácaros, já aposentados, não conseguiam conviver com o ar que entrava e saía dos meus pulmões enquanto eu tentava ler. Logo, eu tinha que me contentar com as edições mais novas e deixar o resto de lado.
Mas naquela manhã eu não achei uma das edições novas. Alguém havia me descoberto.
Tomei a liberdade de reservar o volume retirado com o bibliotecário, a fim de que o desconforto que me trazia não ter um dos meus livros favoritos à mão não se estendesse por mais do que alguns dias. O volume estaria de volta em três dias. Era o que eu teria que esperar até que o anônimo invasor do meu reino de fronteira invisível fosse destituído de sua posse ilegal.
Enquanto vagava pelas outras estantes, perplexo, tentei refletir sobre a razão pela qual aquele fato simples e corriqueiro me incomodou tanto. E comecei a me lembrar de como tudo aquilo começara.
Desnecessário dizer que eu sempre gostei de ler. E as bibliotecas para mim sempre foram pequenas ilhas de tranqüilidade num universo de ambientes onde eu não conseguia me encaixar. Lá eu conseguia me indulgir a certas particularidades bizarras do meu hedonismo mais íntimo. Tais como sentar no chão entre as estantes e entrar num universo qualquer de um escritor escolhido a esmo pela estante. Foi assim que eu conheci C. A novelista norte americana que escrevia sobre amores impossíveis de serem recebidos e fora homenageada por B. com um poema. Foi assim que eu conhecera, no passado, M., J., V., S., D., e muitos outros mestres cuja menção é desnecessária. Foi assim também que eu me apaixonei pelos romances ingleses.
Sempre acreditei que essa atividade me levaria a conhecer universos inteiros apenas pelo prazer de aventurar-me sozinho, sem ter que confiar na palavra de ninguém. Eu mesmo podia navegar no oceano da literatura sem ter de me preocupar com o que as pessoas iriam dizer do que eu lia, sem tampouco dever nada a ninguém. Com o tempo eu me isolei nessa atividade. Tornou-se uma imensa fonte de prazer, andar solitário e sem rumo por entre os livros, olhando detalhes, olhando as capas, cheirando-os, fantasiando, imaginando quem lera aqueles livros todos no passado e por quê. Me viciei também em ler livros sobre escritores, livros que contam como os escritores chegaram às suas idéias brilhantes e inovadoras, e como o dom de observação e a sentimentalidade singular deles os guiaram pelos meandros de suas histórias, pelos conflitos de seus personagens. Só eles tem a chave secreta do livro da vida de todos os personagens. Quem nunca imaginou o que veio antes ou depois da história de determinado personagem? E o que determinado personagem faria se estivesse em seu lugar, na vida real? Quantas decisões não tomamos espelhados nesse raciocínio quase que involuntário? Os livros te dão essa perspectiva, os livros alimentam a sua imaginação. O único detalhe notável é que a minha cometia o pecado da gula.
Por quê diabos alguém havia entrado no universo de C. comigo exatamente naquela semana? Queria saber quem era e enfiar o dedo na cara do indivíduo e expulsá-lo do meu pequeno reino. Mas eu não podia. A educação e a covardia me impediam. O máximo que eu pude fazer foi esperar os três dias.
Três dias depois o livro estava lá, são e salvo na reserva esperando por mim. Tê-lo em minhas mãos me trouxe muito alívio. Eu tinha, enfim, posto o dedo na cara do intruso. O livro fora devolvido, sem delongas, sem protestos. Eu podia lê-lo uma, duas, três vezes se quisesse, sem ser incomodado novamente. Tudo isso eu pensei enquanto o funcionário cadastrava o livro em meu nome e o desmagnetizava para que eu pudesse sair da biblioteca sem acionar o alarme. Mas meu adversário definitivamente era páreo para mim. O funcionário anunciou que havia uma reserva para dali sete dias. Eu devia retornar o livro à biblioteca, sem falta, em sete dias.
Senti o sangue subir-me à cabeça. Saí da biblioteca enfurecido, com passos pesados, pensando em trucidar o ser que ousava invadir o momento mais cândido da minha tranqüilidade. Me sentia injustiçado, acima de tudo. Tivera o trabalho de escolher uma autora cult o suficiente para evitar qualquer disputa por lançamentos em livrarias populares ou para, se quisesse, pesquisar a vida e a obra da autora com pessoas que genuinamente se interessavam pelo seu trabalho e por como a sua vida fora dolorosamente convertida em arte imortal. Ou ainda, ser um dos primeiros no mundo a pesquisar seus manuscritos, e talvez sentir o prazer infindável de encontrar um rascunho, uma carta, uma nota deixada de lado pelos amigos e família da autora falecida que leram em primeira mão seu legado ao mundo. Mas não. Existia alguém ali, próximo, talvez naquele mesmo corredor, que me espreitava e queria um pedaço da minha diversão particular.
Não consegui ler o livro. A pressão era grande demais e eu não conseguia me concentrar. Tentei várias vezes mas não passei das primeiras cinco páginas. Passei os sete dias olhando para o livro na minha escrivaninha, sem nada poder fazer. Absolutamente nada. Pensei em roubar o livro da biblioteca, voltar lá e dizer simplesmente que eu perdi o livro. Talvez tivesse que pagar o livro ou achar algum da autora e repor. Sim. Era antiético. Mas dessa forma eu estaria livre para sempre do terror de talvez ter que trilhar meu caminho entre as estantes e ver meu reino arrasado, enfrentar a ausência do livro como prova cabal da realidade que se impunha sobre mim.
Contudo, no sétimo dia, o livro foi devolvido por mim. Sem protesto nem roubo. Resolvi aceitar a realidade e seguir adiante. Pensei em mudar minha preferência talvez para 833: Ficção Alemã. Lá com certeza a chance de me deparar com alguém usurpando meu território de forma tão explícita seria menor. Me condenei rapidamente. Dessa forma tudo estaria arruinado. Onde estaria o prazer imenso em simplesmente escolhei um volume a esmo e levantar minha âncora deste mundo? Eu seria, caso aceitasse essa cisão em meu território, apenas alguém limitado pelos códigos. O meu universo de escolha seria somente após o 833. Mas e o resto? E se eu tivesse perdido algum excelente escritor pelo caminho? Talvez não fosse como C., mas poderia ser talvez um K. ou ainda um P. Não! Definitivamente as coisas não seriam as mesmas depois desse evento simples, mas catastrófico. Depois de devolver o livro resolvi subir novamente ao segundo andar e pensar um pouco. Deparar comigo mesmo visto de um ângulo não muito agradável definitivamente não era prazeiroso. Eu reagia de forma totalmente inconsciente e instintiva. Não conseguia me sentir confortável da mesma forma que antes. Sentei entre as estantes. 812: Drama Americano. T. Nunca havia lido nada dele, embora seus títulos fossem interessantes. Entre as estantes, percebi uma sombra no corredor adjacente. 813. Alguém se aproximava. Não me mexi. Não queria fazer barulho algum. Eu observaria. E caso fosse o usurpador sorrateiro, ele seria implacavelmente confrontado.
A sombra adentrava o corredor. De onde eu estava, tinha vista por entre as prateleiras e poderia ver exatamente onde ele pararia e, aliado a meus conhecimentos do território, saberia exatamente qual obra de qual escritor estava consultando. Silêncio. A sombra se movia em direção ao fim do corredor, mais e mais próximo de 813. A sombra agachou-se. Precisamente em frente ao local onde eu estava sentado e encolhido em silêncio. 813 M117m. Eu estava com certeza defronte meu inimigo, separado apenas por alguns centímetros, duas estantes de ferro e duas fileiras de livros que impediam que trocássemos um olhar livre. Tentei decidir o que fazer rapidamente. Escolhi me levantar devagar e passar por entre as estantes, fingindo apenas estar passando, com destino a outra estante mais à frente, dessa forma, poderia ver meu inimigo sem que este imaginasse que eu estava em seu encalço.
O que eu vi não poderia ser mais surpreendente: Ela estava sentada, encostada na estante, lendo o outro volume disponível de C., exatamente do mesmo modo que eu costumava fazer. Reconheci imediatamente a contracapa verde-clara. Quis surpreende-la no ato, perguntar se ela era quem ousava reservar o livro depois de mim. Mas não pude. Fui fraco, como sempre. Segui adiante, buscando refúgio no corredor seguinte. Onde, por entre as prateleiras, eu conseguiria vê-la. Milhões de perguntas zuniam dentro da minha mente, mas eu só conseguia observá-la, em silêncio. Ela tinha cabelos pretos curtos, ligeiramente ondulados, um pouco acima dos ombros. Era pequena, magra e morena com traços bem delineados. As mãos eram ágeis ao virar as páginas, angulosas, de unhas curtas bem feitas. Ela vestia uma camiseta azul-clara, jeans azul-escuro e tênis brancos de corrida. Não conseguia ver mais nada de onde eu estava, observando-a quase covardemente pelas costas. Senti uma familiaridade absolutamente desconcertante naquela cena. Ela sentada no chão, despreocupada, lendo C., matando o tempo, como se tivesse saído de uma lembrança minha.
Tive medo. O que eu faria depois de saber o que sabia? Não sabia como nem por quê, mas sabia que tinha que reagir de certa forma. Aquilo parecia uma ironia cósmica, saber que meu universo era invadido não por um inimigo, mas por um semelhante. Tinha de descobrir mais sobre ela, mas com certeza isso não se daria pelas vias normais. Invariavelmente seria algo indireto, escuso, tímido, como eu era.
Muitos dias se passaram. Eu devolvi o livro em seu lugar, tentando inutilmente utilizá-lo como isca. Mas ela não apareceu mais para pegá-lo. Me perguntei se ela não seria somente uma leitora, não uma semelhante. Talvez ela não fosse como eu, afinal. Talvez ela sim estaria seguindo uma recomendação e estava ali por acaso. Talvez aquele gesto tão familiar para mim não fosse nada mais que um acaso. Mas na verdade isso tudo me confundia mais ainda, me empurrava na direção da curiosidade. Quanto mais perguntas eu fazia, mais eu queria respondê-las e isso não fazia a lembrança dela desaparecer. Eu tinha que agir, não importa de que jeito.
" Charles, bom dia."
" F. Bom dia. Veio renovar?"
" Sim, por favor."
" Um minuto." Charles digitou nervosamente no teclado do terminal da biblioteca "Mmm. Pronto. Para daqui sete dias. Todos eles."
" Obrigado, Charles. Obrigado mesmo. Mas eu preciso de mais um favor seu."
" Pode falar."
" C.M. 813 M117m. Quem pegou o livro antes de mim? Preciso muito saber..." Charles me olhou imensamente desconfiado. Mas, como era meu amigo e eu já havia saciado seu apetite literário várias vezes com livros emprestados, ele não hesitou em me pagar de volta o favor.
"Só um minuto. Vou consultar." De sua maneira usual, Charles digitou mais uma vez alguns comandos para consultar o bando de dados de empréstimo da biblioteca.
"Você quer o número de registro dela também?" Perguntou Charles, como se fosse cúmplice de um crime.
"Não. O primeiro nome já é o bastante."
"C." Respondeu Charles.
" Muito obrigado!" Respondi, sorrindo.
Fora fácil. Agora eu tinha o nome. E de que me adiantaria? Com certeza não iria escrever o nome numa cartolina e esperar no saguão da biblioteca dia após dia, até ela aparecer. Eu iria fazer algo bem mais sutil.
"C.
Preciso muito falar com você. Estou curioso e queria te fazer algumas perguntas. Uma resposta a esse bilhete já diria muito. "
Pus o bilhete no meio de 813 M117m. Não tive coragem de assinar. Mas mesmo assim me contentava com a idéia de que o mero fato dela achar o bilhete realmente diria muito. Se houvesse uma resposta para o bilhete, ela seria uma semelhante. Se não, era um caso para esquecer, uma coincidência. E se fosse coincidência, eu poderia dormir tranqüilo, sem mais perguntas sobre ela zunindo na minha mente.
Durante dias eu me sentei, não no meio das estantes como costumava, mas nas mesas de leitura, observando atentamente o livro onde eu tinha deixado o bilhete. Após ter que me ausentar do meu posto eu verificava o livro em procura de alguma resposta. Mas nenhuma veio. Tentei controlar minha ansiedade, que aliada à minha timidez latente não me deixava muita escolha senão esperar mais tempo. Mas embora eu relutasse em reconhecer, a idéia de que tudo aquilo não passara de algo fabricado no interior da minha cabeça de leitor inveterado ganhava terreno. Relutei em me convencer que aquilo era uma coincidência e nada mais.
Eu refleti sobre a situação como um todo. Consegui, em meio à minha ansiedade, me ausentar de mim mesmo e ver a situação por outro prisma: eu era um esnobe. Um esnobe intelectual. E como podia isso ser? Era simples. Eu criara aquela situação toda. Eu tinha o hábito de leitura compulsiva, o que me levava a achar que eu era alguém incomum em meio a todo o mundo. O centro do meu próprio universo. Mas eu não era. Os livros estavam na biblioteca para todos consultarem. Por quê haveriam de ter edições lá pelas quais apenas eu me interessaria. O fato de C. ter lido também os livros de C. só vinha a provar que todo o distúrbio causado não se dava porque o fato era incomum, mas porque ele era comum. Eu é que não aceitava. Eu era um leitor comum. Eu ter escolhido C. não me tornava especial. Era apenas obra do acaso. Bem como era obra do acaso C. estar sentada entre as estantes naquele dia.
Essa conclusão me trouxe alívio, por fim. Desisti do meu posto de observação. Desisti da minha vigilância rígida sobre os livros de C. Depois daquela devolução muitas semanas se passaram sem que eu sequer pensasse em voltar àquela estante. Procurei outros escritores, outros temas, outras coisas nas quais me concentrar. Os amores impossíveis de serem recebidos descritos por C. não eram mais tema central para mim.
Eu encontrei J. Outro autor fascinante pela crudeza de sua narrativa e pelo humor que ele punha em seus personagens. Seus personagens tinham vida. Ele escrevia sobre o nascimento de um escritor. E o nascimento do escritor, para ele, se dava ao mesmo tempo que o nascimento do homem contido no escritor. Embriões-escritores. Embriões-homens. Todos esperando para nascer. Gostei dessa idéia. Além do mais, eu havia feito progresso: J. não fora encontrado dentro da biblioteca, embora com certeza pertencesse também a 813. Devo dizer também, por vaidade, que J. não me foi sugerido por ninguém.
O engraçado desse evento todo, da descoberta de J., é que J. teve a vida muito parecida com a de C.: ambos tiveram doenças que tornavam escrever uma atividade quase insuportável. Ambos morreram jovens e amaram uma só pessoa na vida. E eles dois tinham B. em comum. B., que homenageara C. com um poema, fora admirador profundo de J. B. apenas se enveredou pelos caminhos da literatura porque um dia leu J. Achando toda essa coincidência fascinante, voltei um dia à biblioteca novamente com destino certo. 813. Dessa vez procurando por B. Escolhi, dentre os seus vários títulos lá disponíveis, um que me agradou e levei para casa. Antes de iniciar a leitura, folheei o volume em busca do pequeno papel com a data de devolução que o bibliotecário costuma colocar nas primeiras páginas. Não havia papel com data de devolução. Havia apenas um bilhete dobrado ao meio, escrito cuidadosamente, com letra de forma reta.
"Prezado admirador de C.,
Sua nota me perturbou por alguns dias. Quis responder logo, mas resolvi deixar a resposta num lugar menos óbvio. Tenho minhas razões. Você achar este bilhete realmente me dirá muito.
C.
P.S.: Achei o título deste volume apropriado para uma resposta minha."
Fiquei absolutamente perplexo com o que acabara de encontrar. Não consegui raciocinar direito por algumas boas horas. Li e reli o bilhete várias vezes. Queria ter certeza de que o bilhete era de C. Parece até hoje inacreditável que a cabeça de alguém possa funcionar dessa maneira. Eu estava maravilhado, e de certa forma abismado, em saber que tudo o que eu havia pensado de C. não passara de perda de tempo. Ela era uma leitora inveterada. Era, definitivamente, uma semelhante.
Me lembrei da primeira vez que a vi, sentada preguiçosamente entre as estantes, perdida entre os parágrafos de 813 M117m, imersa na prosa sensível e cativante de C. Tal lembrança me fez sorrir como eu não sorria há muito tempo. O seu P.S. também de certa forma denotava algo ligeiramente esnobe em seu caráter. Embora, claro, não deixasse de ser um comentário imensamente espirituoso.
Escrevi uma resposta à ela em um papel roxo, para que não houvesse chance dela não encontrar o bilhete. Pensei em por de volta em B., mas logo desisti em favor de C. Achei bem mais apropriado, afinal, foi por causa de C. que tudo começou. Se não fosse eu, meus hábitos e minhas excentricidades, nada disso teria acontecido. Causalidade. Nunca saberei.
Esperei aquele dia todo. Pensei que talvez naquele mesmo dia ela estivesse por lá e fizesse sua ronda habitual e descobrisse minha resposta esperando por ela. Mas ela não apareceu. Decidi voltar no dia seguinte.
O dia seguinte amanheceu chuvoso. O céu cinza-chumbo prognosticava um dia de chuva fina, irritante e contínua. Ponderei por alguns momentos se eu deveria ir até a biblioteca verificar se C. havia recebido sua reposta. E talvez, se ela fosse rápida, deixara alguma para mim. Apanhei o guarda-chuva e fui. Afinal, o que uma chuva apenas poderia fazer de mal?
Cheguei molhado até os ossos na biblioteca. Charles me olhou espantado e eu sorri para ele, como quem quer dizer 'não posso evitar estar molhado desse jeito'. Ele sorriu de volta, divertido pela minha falta de jeito. No segundo andar, penúltima estante, quarta prateleira de cima para baixo, os últimos livros na direita. C. O volume novo. Abri. Folheei. Não havia mais papel roxo. Ela havia recebido a resposta. Me voltei, sentando no chão e encostando na prateleira, com o volume na mão. Não havia quase ninguém na biblioteca, a chuva havia espantado a todos. Levantei-me, procurando por ela. Não estava a vista ali, perto de 813. Verifiquei todos os cantos da biblioteca. Ela não estava lá. Decidi ir embora, desapontado.
Abri meu guarda-chuva, ainda molhado, e prossegui de volta para casa Logo após a cobertura do corredor que levava à porta principal, onde eu estaria vulnerável às poças d'água e à chuva torrencial. C. apareceu, protegida por um guarda-chuva roxo. Sorri, tímido, assim que ela olhou para mim pela primeira vez. Percebi que ela tinha olhos negros, profundos e puxados quase à maneira oriental. Não consegui reagir e ela se aproximou o máximo que nossos guarda-chuvas permitiam. Retirou o bilhete do bolso e o balançou no ar, como se quisesse dizer algo apenas com o olhar. Eu não consegui entender. Ela chegou mais perto, junto a mim, fechando seu guarda-chuva, desnecessário na distância que ela se encontrava de mim. Tomou o meu das minhas mãos e o fechou também, nos deixando à mercê da chuva.
"Quero te responder que sim. Eu quero." disse ela.
E antes de fechar os olhos, percebi que ela me abraçava e que o papel roxo manchava minha camiseta branca, ajudado pela chuva.

