O post da SFO vem depois.
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Por todos esses anos, eu sempre tive medo da morte - a famigerada condição que supostamente nos faz humanos. Mas como ser humano está longe das minhas pretenções, é difícil para mim aceitar, sem considerar o desespero existencialista Kierkegaardiano, a morte como algo de facto. Mas como fazemos todos nós? Como saber que o fim existe e pode estar próximo e ainda assim nos preocuparmos com pegar o dryclean? Me impressiona muito o fato de que há pessoas nesse mundo que aceitam a morte e a finitude e não fazem o que Dylan Thomas recomenda ao seu pai: vão-se gentis, noite boa adentro ('do not go gentle into that good night'). Ainda, como Isaac, morrem 'velhos e saciados de dias'. Como pode alguém saciar-se de dias? A vida pede mais, mas nem sempre surpreende depois de alguns anos. O ciclo se fecha, lentamente.
Num momento Waking Life (foi uma grande coincidência ouvir alguém falando sobre isso no rádio, depois de ter escrito meio post ontem - e ainda eu ouvia um tango e flutuava!), hoje no taxi voltando de Berkeley, ouvi um comentarista da NPR contar de uma mulher que, em seus delírios, indagava pessoas comuns pela rua - chacoalhando-as - como elas conseguiam lidar com a vida, sabendo da morte.
A vida, queira ou não, é feita de um infinito ciclo de repetições. Tudo na vida é repetido inúmeras vezes - [INTERLÚDIO] por isso eu não consigo comprrender a razão da obcessão que as pessoas têm com querer acertar sempre da primeira vez, faz alguma diferença, acertar, do ponto de vista da eternidade? [FIM DO INTERLÚDIO] - ciclos de 24 horas, 7 dias, 12 meses. Tudo igual. Os anos passam cada vez mais rápido.
Quando se sente a primeira náusea das repetições da vida, se tem a experiência da morte como a mente a experimenta. Quando a sua falta de vontade de repetir os dias se faz presente, assim se conhece o primeiro passo em direção da morte. Foi o que aconteceu no último ano que passou, um eterno dejá vu de situações, mesmo contando com inúmeras mudanças.
Sêneca comenta de Cícero que este, sendo um dos homens mais inteligentes em Roma por décadas, acabou um 'meio prisioneiro'. Há uma certa ironia no tom, e maior ironia ainda quando ele elogia os feitos de Augustus (Otavinho, para os íntimos), que segue em busca da reclusão da vida pública em favor dos seus 'entretenimentos'. Se ambos Cícero e Otávio eram homens sábios - e ambos buscavam a sabedoria até como forma de entretenimento. Qual a diferença entre o político por trás das câmeras e a figura do imperador? Com certeza não diferem em importância. Mas o homem que ardilosamente pôs a sabedoria teórica de Gaius Julius Caesar em prática tem mais valor. Atos simples, coisas visíveis.
Nas Sátiras, Juvenal cunhou a frase "Quis custodiet ipsos custodes?" ou "Quem guardará os guardiães?". Isso era um problema para Platão, na República - e este justificava que os guardiães não necessitavam ser guardados pois eram, naturalmente, mais sábios e atuavam com dikaiosune, ou o conceito do conjunto de virtudes que leva à virtude da justiça. E isso nos leva ao paradoxo da sabedoria: de que adianta, buscar a sabedoria, se hoje em dia os sábios - proclamados como tais - só o são mediante o clamor da maioria não sábia. Matematicamente falando: a soma das burrices não reconhece a unidade da inteligência, pois é uma diferença qualitativa. Em outras palavras, recaímos na dialética vulgar de que 'cabe somente ao sábio reconhecer outro', e como bem vê Nietzsche, é claro que nós sempre apontaremos sábios.
Sábios ou não, o que importa é que vejam o que sabemos em uma forma tangível, aquém do questionamento dúbio e do ardil dos críticos. Uma prova cartesiana de que sim, vale a pena viver, quando se tenta fazer algo que é eterno.
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Por todos esses anos, eu sempre tive medo da morte - a famigerada condição que supostamente nos faz humanos. Mas como ser humano está longe das minhas pretenções, é difícil para mim aceitar, sem considerar o desespero existencialista Kierkegaardiano, a morte como algo de facto. Mas como fazemos todos nós? Como saber que o fim existe e pode estar próximo e ainda assim nos preocuparmos com pegar o dryclean? Me impressiona muito o fato de que há pessoas nesse mundo que aceitam a morte e a finitude e não fazem o que Dylan Thomas recomenda ao seu pai: vão-se gentis, noite boa adentro ('do not go gentle into that good night'). Ainda, como Isaac, morrem 'velhos e saciados de dias'. Como pode alguém saciar-se de dias? A vida pede mais, mas nem sempre surpreende depois de alguns anos. O ciclo se fecha, lentamente.
Num momento Waking Life (foi uma grande coincidência ouvir alguém falando sobre isso no rádio, depois de ter escrito meio post ontem - e ainda eu ouvia um tango e flutuava!), hoje no taxi voltando de Berkeley, ouvi um comentarista da NPR contar de uma mulher que, em seus delírios, indagava pessoas comuns pela rua - chacoalhando-as - como elas conseguiam lidar com a vida, sabendo da morte.
A vida, queira ou não, é feita de um infinito ciclo de repetições. Tudo na vida é repetido inúmeras vezes - [INTERLÚDIO] por isso eu não consigo comprrender a razão da obcessão que as pessoas têm com querer acertar sempre da primeira vez, faz alguma diferença, acertar, do ponto de vista da eternidade? [FIM DO INTERLÚDIO] - ciclos de 24 horas, 7 dias, 12 meses. Tudo igual. Os anos passam cada vez mais rápido.
Quando se sente a primeira náusea das repetições da vida, se tem a experiência da morte como a mente a experimenta. Quando a sua falta de vontade de repetir os dias se faz presente, assim se conhece o primeiro passo em direção da morte. Foi o que aconteceu no último ano que passou, um eterno dejá vu de situações, mesmo contando com inúmeras mudanças.
Sêneca comenta de Cícero que este, sendo um dos homens mais inteligentes em Roma por décadas, acabou um 'meio prisioneiro'. Há uma certa ironia no tom, e maior ironia ainda quando ele elogia os feitos de Augustus (Otavinho, para os íntimos), que segue em busca da reclusão da vida pública em favor dos seus 'entretenimentos'. Se ambos Cícero e Otávio eram homens sábios - e ambos buscavam a sabedoria até como forma de entretenimento. Qual a diferença entre o político por trás das câmeras e a figura do imperador? Com certeza não diferem em importância. Mas o homem que ardilosamente pôs a sabedoria teórica de Gaius Julius Caesar em prática tem mais valor. Atos simples, coisas visíveis.
Nas Sátiras, Juvenal cunhou a frase "Quis custodiet ipsos custodes?" ou "Quem guardará os guardiães?". Isso era um problema para Platão, na República - e este justificava que os guardiães não necessitavam ser guardados pois eram, naturalmente, mais sábios e atuavam com dikaiosune, ou o conceito do conjunto de virtudes que leva à virtude da justiça. E isso nos leva ao paradoxo da sabedoria: de que adianta, buscar a sabedoria, se hoje em dia os sábios - proclamados como tais - só o são mediante o clamor da maioria não sábia. Matematicamente falando: a soma das burrices não reconhece a unidade da inteligência, pois é uma diferença qualitativa. Em outras palavras, recaímos na dialética vulgar de que 'cabe somente ao sábio reconhecer outro', e como bem vê Nietzsche, é claro que nós sempre apontaremos sábios.
Sábios ou não, o que importa é que vejam o que sabemos em uma forma tangível, aquém do questionamento dúbio e do ardil dos críticos. Uma prova cartesiana de que sim, vale a pena viver, quando se tenta fazer algo que é eterno.

