
"Sócrates considerava uma aflição que beira a loucura, imaginar-se possuidor de uma virtude que não se tem; tal ilusão é muito mais perigosa que o seu oposto, a ilusão de sofrer por uma falha ou vício. Pois da segunda ilusão pode-se facilmente recuperar, ao passo que a primeira ilusão faz o ser humano pior a cada dia que passa."
Friedrich Nietzsche, "Vom Nutzen und Nachteil der Historie für das Leben".
A criatividade faz com que a arte diga sem palavras. Esse é o grande tema do filme 'Lars and the Real Girl'. Com certeza um dos filmes mais bem sacados e fora do comum que eu vi recentemente (Além de 'Lost'). Bem mais bem sacado que Juno, se você me perguntar [INTERLÚDIO] (Juno é uma garota chata, é aquela menina que você beija pois ela é espertinha e sacadinha, mas cansa depois de um mês pois ela entregou tudo no primeiro encontro - todas as piadas, todos os chistes e mariolas de que ela é capaz para te manter interessado. Tira a gatinha da Ellen Page e põe a feiosa da Heather Matarazzo e você tem a Juno da vida real. Em uma frase: Juno é a versão emo e suburbana de Kids e Gumo - se você não assistiu, assista! Do it!) [FIM DO INTERLÚDIO]. O filme conta a história de Lars, um cara tímido que evita a companhia de humanos sempre que possível - porém, ele trabalha num escritório qualquer e mora na garagem nos fundos da casa do seu irmão Gus.
Gus compra uma boneca e chama de namorada. Pura e simplesmente. O nome dela é Bianca e ela é meio brasileira, meio dinamarquesa.
Bianca é religiosa, não dorme no mesmo quarto que Lars. Bianca faz trabalho voluntário na igreja e na escola e tem um emprego de meio-período em uma loja de roupas. Bianca tem uma agenda cheia e ainda acha tempo para ir à missa aos domingos.
E, sem palavras - pois Lars assim o escolheu - por ser a projeção, o fetiche, o silêncio, a compreensão, e muitas outras coisas que as pessoas da cidade vêem em Bianca, ela muda a vida de todos. Ela ensina o contrário do que prega esse post só porque ele existe.
Quem dera tivéssemos a maturidade da loucura de Lars para escolher a companhia do silêncio ao invés das palavras. Quem dera aprendessemos a conviver com o reflexo de nós mesmos, e pudéssemos externar os nossos conflitos, insatisfações e pudéssemos discutir com eles e superar dificuldades sem que ourtas pessoas sejam nosso alvo. Parece natural posto dessa maneira: primeiro aprendemos a conviver com nós mesmos e depois, nos envolvemos com o outro. Lars explicou melhor, veja no filme.
E no final Bianca era muito real.

