"Ah. I'd like to have an argument, please."

"Certainly sir. Have you been here before?"

"No, I haven't, this is my first time."

"I see. Well, do you want to have just one argument, or were you thinking of taking a course?"

"Well, what is the cost?"

...

Wednesday, February 27, 2008

O Fetiche do Mundo Corporativo

A razão pela qual eu nunca entrei no mundo corporativo para valer é o fato dele representar uma grande contradição para a qual não há uma resposta definitiva: o mundo corporativo apresenta o trabalho como uma não-vida, oposto da vida, o lado escuro da Lua. Como pode um cidadão passar oito horas diárias numa eterna espera pelas quatro que ele passará em casa, na rua, na chuva, na fazenda, sendo quem ele realmente é?

Mas o homo incredulus me perguntaria: mas quem disse que o trabalho é uma não-vida? Quem disse que você não é você no trabalho? [Pausa dramática] Bom... Quem realmente quer ter as qualidades necessárias para ser um bizzinisman de sucesso? Quem realmente tem o Roberto Justuscop como modelo de vida? [INTERLÚDIO] Tá, ele é rico. Ele volta apra a casa para as sagradas quatro horas de Justus sendo Justus e quem ele encontra? Ticiane Pinheiro. E ela vai te contar como ela passou o dia mangueirando as tetas da Karina Bacchi. Quem em sã consciência quer ser assim? Você quer mangueirar você as tetas da Karina Bacchi (isso vale se você for mulher também, pois invoca a contemplação do belo), my friend, não ouvir a sua esposa falando que ela o fez. E ela pergunta ao Justus o que ele fez: mais uma vez ele provou a todos que ele é fodão durante um almoço que provavelmente custou mais que um salário mínimo. [FIM DO INTERLÚDIO]. Enfim, você tem de ser: eficiente, motivado, pró-ativo (quem usa essa palavra numa conversa séria fora de uma empresa é um idiota, e tenho dito), pragmático. Deve ter people skills, manager skills, conflict resolution skills, leadership skills, ter inteligência normal, inteligência emocional e inteligência social (os dois últimos leia-se habilidade para evitar a vida pessoal). Quem é assim de fato? Resposta: ninguém. O que você faz? Resposta: finge. Quem nunca fingiu no mundo corporativo é duas coisas: desempregado ou mentiroso. Se você finge, o fingimento é um falácia de uma qualidade que você não possui, se você não possui, você mente, se você mente, badabim, o seu trabalho é uma não-vida.

Vamos aqui acabar com a palhaçada filosófica e chegar no ponto legal: desmistificar os aforismos acerca do mundo corporativo.

No mundo corporativo se ganha muito dinheiro;
Sonoro não. Você trabalha feito um filho da puta para que outro ganhe dinheiro por você, esperando que um dia algum filho da puta trabalhe para que você ganhe dinheiro. Mas se você já trabalhou a vida toda feito um filho da puta, você não está ganhando nada demais por ter um filho da puta trabalhando para você. No final, quem se deu bem foi só o primeiro cidadão que teve filhos da puta trabalhando para ele e não trabalhou nada, o resto só se ferrou.

No mundo corporativo você aprende muitas coisas;
Somente aquelas que são necessárias para a manutenção e preservação do mundo corporativo. Eu montei cursos e lecionei Inglês para uma empresa de consultoria (Camilinha, amor, oi) que tem orgulho de contratar engenheiros para fazer trabalho de office boy/programador de computador em regime de engenho de cana de açúcar. Conclusão: o mercado se orgulha de contratar um cidadão que estudou seis anos uma coisa que nunca vai usar como prova de esforço e valor pessoal. Prova de burrice e de estupidez e desperdício de mão-de-obra, isso sim! Em 400 A.C. Platão disse na República que cada homem tem sua virtude e sua techné (grego para 'profissão' ou 'técnica') e deve exercê-la de acordo. Funcionou por dois mil anos. Mas o mundo corporativo resolve reinventar-se: eles contratam pessoas para fazer o que elas não estudaram para fazer. Logo, no mundo corporativo, as chances são que você desaprenderá algo para o próprio cumprimento da sua função.

O mundo corporativo recompensa os seus valores pessoais e éticos;
É quase auto-explicativo que não. O conjunto de valores pessoais pregados pelo RH (os psicólogos e responsáveis pela lavagem cerebral) tem como característica um termo bem conhecido pelos próprios psicólgos: perversão. Perversão é quando você reverte o uso de alguma coisa para algo que vai contra o seu princípio de existência. Vamos à lista de decodificação de valores.
  • Eficiência: Como todos fazem um trabalho X em Y tempo, você é eficiente se você faz 2X trabalho em Y/2 tempo. O que normalmente, segundo os avanços da física quântica, requer que você arranje algum palhaço para fazer por você sem levar crédito.
  • Motivação: Pico da lavagem cerebral. É o estágio onde o indivíduo acredita que realmente fará diferença as 18 horas de trabalho diárias. É o mesmo valor ético que um terrorista suicida experimenta quando ele se explode na medina e depois, pairando acima dos vivos e vagando em direção à luz branca, ele ouve o Noticiário da Noite anunciar: "o terrorista matou três compatriotas, feriu duas velhinhas que iam à feira, matou três gatos, dois pombos e aleijou um papagaio, as velhinhas passam bem e receberam auta 5 minutos após o atentado."
  • Pró-Atividade: Um termo técnico cunhado por Sigmund Freud e Zinedine Zidane, que consiste no ação de caráter reflexivo tomada no período de tempo entre o estímulo causado pelo provocador e a reação do superego. A Pró-Atividade requer um treino de caráter avançado como previsto pela psicologia behaviorista de B. F. Skinner e os Jogos de Linguagem de Ludwig Wittgenstein. Exemplo:
Chefe: Quem vai revisar e transcrever os relatórios dos últimos 12 anos da companhia que estão mimeografados para o nosso único editor de texto licenseado, o notepad?
Funcionário Pró-Ativo: Eu faço.
Superego do Funcionário Pró-Ativo: NÃO... [...] para quê você foi se oferecer, seu viado?
Funcionário Pró-Ativo [murmurando para si mesmo]: Caralho...

  • Pragmatismo: Princípio artificial que significa objetividade. No mundo corporativo significa que você deve fazer o máximo de tarefas no mínimo de tempo. Porém, qualquer membro de uma corporação sabe que o princípio da valorização do tempo e o hábito, tal qual definido pelo filósofo David Hume, sobrepuja o princípio do Pragmatismo. Em outras palavras, se você fizer algo bem e rápido, o seu chefe se acostumará com isso e o seu empenho não será notado. Claro exemplo da perversão e da futilidade do uso do termo.
  • People skills, manager skills, conflict resolution skills, leadership skills: mais conhecidos como o 'quadrângulo do mal', tais conceitos foram introduzidos na cultura corporativa por figuras como Gaius Julius Caesar, Nicolau Maquiavel, Francis Bacon, Tomás de Torquemada, Adolf Hitler e Darth Vader. Consitem no ato de convencer as pessoas a trabalharem mais, do jeito que você quer, sem brigarem pelos resultados ou pela autoria do serviço (o autor será, evidente, você) e te acharem o máximo por isso sem absolutamente nenhum incentivo. Habilidade largamente possuída pelos senhores feudais de outrora, hoje uma tal escola perto da minha casa, uma tal de Harvard Business School, ensina por 50 mil dólares anuais. Eu cobro menos, 25 mil lascas e estamos conversadíssimos.
  • Inteligência normal, inteligência emocional e inteligência social: Finalmente chegamos à inversão de valores no seu exemplo par excellence. Aqui o jugo da dominação funciona sobre você mesmo: como você consegue abdicar das suas 4 horas diárias sagradas e se recompensar por isso? Fácil: chame o ato de auto-negação da vida maior em prol de um futuro duvidoso de inteligência. Como o termo Inteligência e seus subprodutos são de fato complexos e de difícil explanação mesmo - além de passatempo de marginais, perdedores, viados, hippies e desocupados em geral como filósofos, cientistas sociais, antropólogos e cientistas da cognição - fica tudo la même chose: ninguém explica a inteligência e a burrice fica por conta também.
Enfim, fellas. O trabalho corporativo é um fetiche - e isso é sério. No sentido mais Marxista possível: o trabalho corporativo é um objeto inútil por si só, investido de um poder irreal materializado no nome e posição da empresa. Seu trabalho, mesmo não sendo o que você faz - sendo a sua não-vida, determina a sua posição social, sexual e o que os seus amigos acham de você. Isso diz mais sobre as pessoas que compram o fetiche como real do que sobre o trabalho em si.

E eu termino com uma nota triste: Nesse trabalho que eu desenvolvi para essa empresa de consultoria eu: a) ganhava mais do que a maioria deles, b) trabalhava 1/4 das horas, c) não me sujeitava à hierarquia, pos eu não era membro da corporação. Ainda assim, era considerado por eles como segunda classe, vassalo e serviçal. As situações de conflito com a direção da empresa se davam pelo fato de que eu queria ensinar inglês, os alunos não queriam aprender, e eu devia encontrar um meio termo. Isso, senhores, foi uma pequena piada sobre o mundo corporativo. A realidade é muito pior.